Mas as provas directas da falsidade clinica da doutrina de Foville abundam. Assim, a observação permitte affirmar que não só o perseguido nunca formúla a pergunta: Porque me perseguem? mas que, interrogado n'este sentido, invariavelmente responde: Não sei. O absurdo de uma perseguição sem causas, de uma hostilidade immotivada não choca esta ordem de doentes; e é debalde que se tenta dirigir-lhes a attenção para o exame de um assumpto que parece não os interessar. Absorvidos pelas allucinações ou empenhados em conjurar os effeitos de uma aggressão implacavel, os perseguidos não sentem a necessidade de inquirir as razões d'ella; e todo o insistente convite n'este sentido serve apenas para os impacientar, quando os não leva a entrevêr no solicito observador um cumplice de imaginarios inimigos.
Mas ha mais. Se o delirio ambicioso podesse installar-se a titulo de explicação de precedentes perseguições, nada seria mais facil do que provocal-o: bastaria suggerir ao perseguido os themas habituaes da megalomania, deixando-lhe a escolha. Por outros termos: se o raciocinio bastasse, como candidamente pretendia Foville, a operar a transformação de uma personalidade,—para fazer-se de um perseguido um megalomano seria necessario apenas dizer-lhe precocemente o que, segundo o auctor francez, elle se dirá um dia, isto é, que, não podendo haver perseguições sem causa, o encarniçamento dos seus inimigos deve naturalmente explicar-se quer pela inveja dos altos meritos pessoaes do doente, quer pelo interesse de supprimir um individuo destinado, como elle o é, talvez, a reinar, a dirigir um partido, a instituir uma religião, a reformar uma sociedade, a mudar a face de uma sciencia. Ora, a verdade é que suggestões d'esta ordem não só não abalam os perseguidos que, aliás, se tornarão mais tarde megalomanos, mas determinam n'elles ora uma franca hilaridade, ora indignados protestos. Repeti muitas vezes, no começo da minha carreira, experiencias d'esta natureza, conseguindo apenas provocar dos doentes contestações como estas: que não estão doidos para desconhecerem a sua situação; que não admittem zombarias; que as historias phantasticas são boas para entreter creanças e idiotas; que não é digno escarnecer de quem soffre.
É, pois, radicalmente falso e absolutamente contrario aos dados da observação que o delirio de grandezas appareça como tentativa feita para explicar perseguições soffridas. A idéa ambiciosa, como a de hostilidade, surge no espirito de um modo espontaneo e inconsciente; do delirio de grandezas póde, pois, repetir-se o que foi dito do delirio de perseguições: que elle irrompe á sua hora, como o fructo amadurece e o grão germina.
É só depois de installado por um processo a que são extranhos o raciocinio e a vontade, que o delirio de grandezas servirá para explicar o de perseguições, como este, por sua vez, servira ao doente para interpretar os factos da sua vida anterior. É só a partir do momento em que se crê excepcionalmente grande pelo genio, pelo nascimento ou pela fortuna que o paranoico principia a explicar-se as miserias supportadas.
Note-se, porém, este facto curioso e imprevisto em face da theoria que criticamos: o delirio de grandezas, dando um solido ponto de apoio ás idéas de perseguição, que esclarece e interpreta,—bem longe de as radicar, tornando-as definitivamente preponderantes no espirito do paranoico, tende, pelo contrario, a diminuil-as e a subalternisal-as em proveito proprio.
Tal é o irrecusavel depoimento da clinica, absolutamente incompativel, como se vê, com a theoria que faz dos delirios paranoicos resultados de um esforço da intelligencia para comprehender e interpretar vagos e obscuros estados emotivos. Se essa theoria prevalecesse, a autonomia nosographica do delirio systematisado de perseguições seria inteiramente chimerica; e todo o esforço de Lasègue para o destacar da melancolia delirante resultaria inane, pois que a pathogenia, a despeito de todas as possiveis differenciações symptomaticas, identificaria definitivamente as duas doenças.
Tendo de voltar ainda a este assumpto, procuraremos então interpretar as hesitações dos perseguidos e megalomanos na exhibição dos respectivos delirios.
Por mal comprehendido, esse facto contribuiu não pouco para acreditar a phantastica doutrina da génese consciente e reflexiva dos delirios systematisados. A hesitação, parecendo implicar a duvida, iria bem com a opinião que faz d'esses delirios conjecturas de um Eu que se observa, hypotheses de um espirito que se perscruta, buscando dar-se conta de accidentaes perturbações emotivas.
Veremos opportunamente que a interpretação do facto é muito outra; que essas hesitações não são senão o resultado da lucta que se exerce entre idéas nascidas do inconsciente e o systema de conceitos formados pela educação e até um certo tempo impostos pelo meio social.
De modo analogo explicaremos o facto, erroneamente interpretado pelos psychiatras francezes, da inquietação dos perseguidos no periodo inicial da doença.