V—AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS

Erro de Foville sobre as relações dos delirios systematisados com as allucinações; como se perpetuou na psychiatria franceza—Uma antiga idéa de Magnan, exposta por Legrain, sobre este assumpto; falsidade d'essa idéa—Primitividade da concepção sobre a allucinação nos delirios paranoicos—Uma rectificação de Magnan.

Dada a extrema frequencia dos erros sensoriaes, sobretudo das allucinações auditivas, na loucura systematisada, tem-se perguntado se as perturbações da sensibilidade especial precedem as idéas delirantes, servindo-lhes de base e fornecendo-lhes o contheudo, ou se, pelo contrario, apenas lhes succedem como uma sorte de confirmação.

Lasègue, sustentando que as allucinações auditivas, unicas, segundo elle, compativeis com o delirio de perseguições, não são nem o antecedente necessario, nem o consequente inevitavel d'esta vesania, estabeleceu claramente a independencia essencial dos erros conceptuaes e perceptivos na mais commum das fórmas delirantes da Paranoia.

Retomando, porém, annos depois a questão, Foville admittiu para ella duas ordens de soluções, desigualmente frequentes: uma, relativamente rara, em que o delirio é primitivo e as allucinações secundarias; outra, muito commum e, no delirio de perseguições, constante, em que a relação inversa se realisa.

«O delirio, dizia elle, póde ou principiar d'emblèe pelos conceitos ou affectar primeiro as sensações e extender-se depois ás idéas de um modo secundario»[1]. E, analysando cada um d'estes casos, commentava: «N'este ultimo (primitividade das allucinações) as funcções puramente intellectuaes não são, desde o começo, intrinsecamente lesadas, antes continuam a executar-se segundo a logica. Como faz notar Delasiauve, a faculdade syllogistica persiste intacta: emquanto se exerce sobre dados exactos, o producto das suas operações é normal e sensato; quando, pelo contrario, se exerce sobre dados falsos, isto é, sobre sensações imaginarias ou mal interpretadas, sobre allucinações e illusões, o producto encontra-se forçosamente em contradicção com a realidade. O delirio das sensações tem por effeito engendrar o delirio dos conceitos, sem que a intelligencia seja em si mesmo lesada e sem que ella deixe de funccionar sãmente, quando não é induzida em erro. Tal é um dos modos de producção e, não hesitamos em crêl-o, o mais vulgarmente observado da loucura parcial … Mas esta ordem na successão dos phenomenos morbidos, embora a mais frequente, não é constante. Acontece tambem algumas vezes gue a perturbação começa por concepções erroneas, que succedem a uma idéa fixa na ausencia de qualquer allucinação. N'este caso ainda, faz-se ordinariamente uma propagação analoga á que indicamos ha pouco, mas em sentido inverso. Ao fim de certo tempo, as concepções delirantes transformam-se em sensações falsas, o delirio extende-se ás percepções; o doente torna-se allucinado, porque era já delirante, em vez de tornar-se, como ha pouco, delirante, porque era allucinado»[2].

[1] Foville, Obr. cit., pag. 341.

[2] Foville, Obr. cit., pag. 341.

Ora, ao passo que o megalomano-perseguido seria as mais das vezes, segundo Foville, um delirante-allucinado, o perseguido-megalomano, pelo contrario, seria sempre um allucinado-delirante.

Por muito singular que se nos affigure, este modo de vêr de Foville sobre a primitividade das allucinações na Paranoia persecutoria teve um exito só comparavel ao da sua theoria das origens reflexivas e raciocinadas do delirio ambicioso. Repetido em milhares de tiragens pelos alienistas francezes, este novo cliché pathogenico perpetuou-se como o primeiro. Magnan, por exemplo, acceitava-o ainda em 1886 e dava-lhe curso nos trabalhos dos seus discipulos. Como Foville, o medico de Sant'Anna admittia que nos delirios systematisados a allucinação póde tanto ser um symptoma derivado da persistencia de conceitos falsos, como um phenomeno primitivo sobre que assenta e de que procede a ideação pathologica. O primeiro d'estes casos dar-se-hia nos delirios d'emblèe; o segundo no Delirio Chronico. Os degenerados, unicos capazes de fabricarem um delirio sem preparação, e de serem, portanto, megalomanos-perseguidos, entrariam no grupo dos delirantes-allucinados; os normaes, unicos a quem se consigna o Delirio Chronico e, portanto, perseguidos-megalomanos, seriam allucinados-delirantes.