A apparente nitidez d'esta pathogenia seduziu os espiritos; e, comtudo, ella é radicalmente falsa.

Em primeiro logar, a observação clinica protesta contra, a normalidade do perseguido anteriormente á invasão do delirio, proclamando-o não só um predisposto, as mais das vezes hereditario, mas um verdadeiro candidato á loucura,

Antes de imaginar o seu Delirio Chronico anti-degenerativo, releve-se-me a expressão, Magnan reclamava para os delirantes systematisados uma ancestralidade vesanica de duas gerações, pelo menos; e esta idéa, já antes emittida por Morel, é a que sempre dominou as psychiatrias allemã e italiana, accordes em acceitar como hereditariamente invalido o cerebro paranoico. Por outro lado, jámais se estudou de perto a vida predelirante de um perseguido sem que n'ella se encontrassem seguras manifestações de exaggerado subjectivismo, de autophilia, de egocentricidade, tornando difficil, melindroso e ás vezes chocante o commercio social d'este paranoico. E, como se tudo isto não fosse bastante para condemnar a ingenua supposição da normalidade de um espirito, que ámanhã fabricará, sem causas determinantes, um absurdo e tenacissimo delirio, surge não raro no perseguido a estygmatisação physica da degenerescencia.

Em segundo logar, é absolutamente inexacto que o inicial symptoma da doença seja no perseguido, como a theoria inculca, um phenomeno obscuro de ordem sensivel, uma vaga e confusa emoção de que se encontre excluido, como nos prodromos de outras affecções, um elemento ideativo. A experiencia diz precisamente o contrario.

Quando o perseguido começa, no periodo chamado de incubação do delirio, a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente o interrogam, fal-o já por desconfiança do meio, que reputa hostil. É certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoção egocentrica, essa desconfiança, mitigada e ainda compativel com a vida social, o caracterisou sempre; agora, porém, ella tornou-se definido sentimento pela clara apparição no espirito de uma idéa de hostilidade e de perigo. A inquirição perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da mal-querença dos outros, a eclosão, emfim, das illusões sensoriaes, tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma idéa que a orienta, que lhe imprime uma direcção, que a conduz. A illusão auditiva, phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinação ha de surgir, suppõe já um erethismo sensorial a que preside, consciente e nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a idéa de uma hostilidade exterior. E é mesmo, é justamente porque essa idéa está presente no espirito e se lhe impõe que o perseguido paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querença, interpretações aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos; cahindo sinceramente n'uma petição de principio, o perseguido prova que no seu cerebro existe uma idéa que o tyrannisa, que o empolga, e que, tornada um centro de associações psychicas, lhe vicia o raciocinio. Que essa idéa, como todas, proceda de preexistentes emoções, eis o que não contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou indirectamente reponta do humus da sensibilidade; mas só depois que ella espontaneamente appareceu na consciencia é que o delirio se iniciou. Não é, pois, emotiva, mas ideativa a origem directa e immediata d'este.

O que-se passa na melancolia esclarece, pelo contraste, a situação paranoica. Ali, com effeito, o phenomeno inicial é d'ordem emotiva, pois que se reduz a uma depressão consciente, que estados de cenesthesia morbida provocam: a tonalidade psychica baixa, o doente sente-se diverso do que fóra, a dôr moral invade-o, e é ao fim d'algum tempo d'esta situação anormal que o delirio surge, quer como tentativa de interpretação do novo modo de ser, quer como adequada expressão ideativa de um sentimento geral de impotencia. As idéas de crime, de peccado, de doença incuravel, de miseria, de incapacidade, de possessão, n'uma palavra, todas as idéas que formam o contheudo do delirio melancolico, são ulteriores á depressão dolorosa, que é o facto morbido primitivo. Essas idéas não procedem do inconsciente, não irrompem de obscuras emoções por ignorados e mysteriosos processos, mas succedem a um consciente sentimento de dôr, que tem as suas raizes em phenomenos somaticos apreciaveis. O melancolico sente-se mudado, o que é exacto, e torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o perseguido, esse, sente mudado em relação a si o mundo exterior, o que é falso, o que presuppõe uma ideação anormal e, portanto, um começo de delirio, que a observação objectiva apenas ajudará a systematisar. Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de dôr, que é a expressão consciente de perturbações cenesthesicas, se concentra e se interroga, fazendo um delirio secundario, o perseguido, egocentrico e autophilico, partindo de uma idéa chimerica de hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando primitivamente.

A autoobservação e o raciocinio na génese do delirio de perseguições não passam de miragens do espirito. No perseguido a attenção é dirigida em sentido objectivo; e o raciocinio, longe de intervir na formação do delirio, é por elle radicalmente falseado sempre que se trata das relações entre o mundo exterior e o Eu. A verdade clinica é, pois, precisamente o contrario do que affirma a doutrina de Lasègue; a verdade é que o delirio surge á sua hora, como o fructo amadurece e o grão germina: espontaneamente, fatalmente.

Vejamos agora o que se dá com o delirio ambicioso que succede ao de perseguições.

Haverá n'este caso, como pretendia Foville e como á saciedade se tem repetido, uma transformação consciente e raciocinada?

O que acabamos de dizer sobre a direcção exclusivamente objectiva da attenção do perseguido, faz desde já suppôr o contrario. A attitude reflexiva, que seria necessaria para indagar as causas de uma hostilidade do meio, não está nos habitos do perseguido; por outro lado ainda, não é de modo nenhum natural que se procurem as origens de um facto acreditado, como os dogmas, com a inabalavel fé, que dispensa interpretações e as rejeita mesmo.