A extensão com que na parte historica d'este Ensaio tratamos o velho thema da Verrücktheit secundaria, tão caro aos allemães, permitte-nos agora limitar muito as considerações de ordem critica a fazer sobre elle.
Disse alguem que, a partir dos trabalhos de Sander e Snell, a pergunta: Existirá uma Verrücktheit primaria? começou a ser substituida por esta outra: Existirá uma Verrücktheit secundaria? E nós vimos, com effeito, que a extensão d'esta diminuiu sempre na medida em que augmentava a d'aquella. Entendamo-nos, porém: se os delirios systematisados que succedem á mania e á melancolia de longa duração, não merecem realmente um logar no quadro clinico da Verrücktheit, que é uma doença constitucional, mas no grupo das psychonevroses, de que são apenas estados terminaes prefaciando a loucura e revellando já, pela sua mesma inactiva e apagada coordenação, um enfraquecimento cerebral, é indiscutivel que a observação clinica nos permitte uma ou outra vez surprehender delirios persecutorios e ambiciosos vivamente systematisados, activos e tenazes, succedendo, todavia, a psychoses de manifestações maniacas, melancolicas e até mesmo apparentemente demenciaes. Raros, estes ultimos delirios systematisados não o são tanto, comtudo, que os não tenham observado psychiatras de todos os paizes. Como interpretal-os? Onde achar-lhes logar dentro das modernas classificações?
A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por Tonnini: Estes delirios são paranoicos; e a psychonevrose que os precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia, estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente. É possivel que, a não se realisar a incidencia perturbadora do elemento emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua evolução sem manifestações delirantes, comquanto houvessem de caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel egocentricidade. Vulneravel, porém, elle não póde resistir ás causas que nos espiritos sãos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se, portanto. O que deverá succeder a partir d'esse momento? Naturalmente, alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose apressará aquella maturidade degenerativa de que fallam Tanzi e Riva e que tem por expressão intellectual um delirio systematisado. Já em manifesto desequilibrio e já cançado pela passagem tormentosa da psychonevrose, o cerebro não poderá dar a este delirio secundario a forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha ainda a força psychica precisa a uma evolução que póde ser longa e de certo modo movimentada. É n'este especial sentido que, a meu vêr, a Verrücktheit secundaria deve ser admittida.
Note-se, porém, que dizemos Verrücktheit e não Paranoia, no que divergimos de Tonnini. E esta divergencia não é só de fórma, mas de fundo, não apenas de nomenclatura, mas até certo ponto de interpretação. Com effeito, se bem comprehendemos todo o pensamento do escriptor italiano, a psychonevrose sommar-se-hia com uma simples predisposição vesanica para determinar a Paranoia, que os delirios systematisados secundarios symptomatisam; ao contrario, eu penso que a Paranoia preexiste á psychonevrose, embora tendo uma fórma mitigada e revestindo até ao advento d'esta uma feição mal definida, um verdadeiro typo indifferente. A psychonevrose que, na interpretação de Tonnini, contribuiria essencialmente para a constituição da Paranoia, não faz, a meu vêr, mais do que accentual-a, provocando a Verrücktheit, isto é, imprimindo-lhe um definido typo delirante. Todas as degenerescencias teem graus intensivos ou de gravidade: na ordem das paranoicas a mais grave seria a que mais rapidamente chega á maturidade, a mais precoce, a que desde a puberdade se revella por delirios systematisados, isto é, pela Verrücktheit originaria; a menos grave seria a que só attinge a maturidade por virtude de um abalo emocional, a mais tardia, a que se manifesta pela Verrücktheit secundaria. Mas em qualquer dos dois casos, como cm todos, a anomala constituição cerebral que na essencia caracterisa a Paranoia, é congenita. E eis porque eu não hesito em acceitar uma Verrücktheit secundaria, como não hesitei em admittir uma Verrücktheit aguda, comquanto sustente a primitividade e a chronicidade essenciaes da Paranoia.
IV—O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS
Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na psychiatria franceza—A autoobservação e o raciocinio não representam um papel na génese dos delirios paranoicos—Depoimento dos factos—A primitividade dos delirios paranoicos, sua origem ideativa.
Entre os erros concebidos a proposito da origem, sempre anciosamente procurada, dos delirios de perseguições e de grandezas, um ha que, embora contradictado pela experiencia, se divulgou, sobretudo em França, com manifesto prejuizo de uma sã pathogenia: refiro-me ao que faz intervir na génese d'estes delirios a autoobservação e o raciocinio do doente. Lasègue, affirmando que o perseguido, normal até ao momento da invasão da doença, annunciada por um vago, mas profundo mal-estar, se perscruta, se dobra sobre si mesmo, e acaba, não sem hesitações, por encontrar na hostilidade dos homens a interpretação dos seus soffrimentos, foi o creador d'esse erro funesto, que Foville generalisou mais tarde, fazendo proceder a megalomania da necessidade que o perseguido sente de explicar-se os motivos das acintosas miserias soffridas.
Repetida como uma sorte de cliché por successivas gerações de alienistas franceses, esta gratuita vista do espirito, que só Morel repudiou, insinua-se ainda nos livros contemporaneos; e assim é que, embora sem um só caso em apoio, Magnan, á maneira de Foville, enumera o raciocinio entre os fundamentos possiveis da transição, no Delirio Chronico, da phase persecutoria á phase ambiciosa.
Comecemos por examinar esta singular pathogenia em relação ao delirio de perseguições a que primeiro se applicou.
Segundo ella, o perseguido, como um homem são, abruptamente assediado de obscuras emoções dolorosas, buscaria comprehendel-as, determinar-lhes as causas, fazendo conjecturas e construindo hypotheses, entre as quaes está a que, por successivas e mais ou menos demoradas exclusões, elle acceita como a melhor e mais explicativa: a de uma perseguição.