—Ora imagine, continuou o singular personagem, que, desde o pôr do sol, procuro na turba um homem de coração!... Não vi senão homens gordos e irrepreensivelmente trajados, raça de que desconfio, e por isso ficaram-me as palavras na garganta. O que eu tenho a confessar é... nauseabundo. Nem todos o entenderiam.
—Então o que é? perguntou o pintor. Pode dizer...
—Duas palavras somente, mas que me afogam! Tenho fome.
André sentiu um calafrio no coração.
—Ufa! exclamou o desconhecido, até que enfim soltou-se o segredo! Sim, mancebo, há três dias que estou em Paris, e há quarenta e oito horas que não como! Eis a razão por que me encontrou estupidamente pasmado defronte dessa exposição culinária. Com mil bombardas! é cruel mostrar assim aos esfaimados tantas coisas que fariam crescer água na boca até a um homem farto! Contemplando-as, imaginava-me numa noite de festim, uma noite em que{18} o tinido dos garfos e o glu-glu das garrafas se fazia ouvir através das janelas... E as cãibras do meu estômago sugeriram-me o pensamento de que, no meio de um milhão de indivíduos que vão sentar-se à mesa; seria estúpido deixar-me morrer à fome por não querer dar-me ao incomodo de articular duas sílabas. Enfim chegou o senhor... a sua fisionomia inspirou-me confiança... parece-se com... com quem diabo se parece das pessoas que tenho conhecido?... Não importa, falei... o pior está passado!
André remexia já nas algibeiras.
—Espere! disse o velho segurando-lhe o braço. Vai oferecer-me dinheiro... e partirá com a convicção de que o roubaram. Obrigado. Chamo-me Pedro Toucard; é um nome, que não rima com mendigo, nem com tratante. Preste-me um serviço.
—Qual?
—Indique-me o meio de ganhar imediatamente alguns soldos. Sou esperto, aqui onde me vê; e, se não morrer esta noite, tirar-me-hei de embaraços...
—Um meio... imediato? disse André. Não conheço nenhum. Mas aqui está a minha bolsa, partilhemos.