E tirou de dentro dela duas peças de cinco francos, que era toda a sua fortuna.
As pupilas do velho iluminaram-se; contemplou{19} aquele metal, como um amante traído contemplaria ainda a mulher infiel e adorada.
—Dinheiro! murmurou ele. Tinha-me esquecido da cor e do feitio dele!... eu que o possuí aos montes!... Como é belo o dinheiro!... Mas... não... não... exclamou ele recuando um passo, não recebo esmolas!
—Não é esmola, é apenas um empréstimo! lhe tornou André.
E, quer ele quisesse quer não, foi metendo uma das peças de cinco francos na mão calosa do desconhecido.
Àquele contacto, Pedro Toucard, fez-se rubro; as fontes e a testa inundaram-se-lhe de ardentes gotas de suor, vapor condensado da terrível luta que nele se travava entre a vergonha e a fome. Os olhos, de um pardo esverdeado, tornaram-se-lhe húmidos e brilhantes.
—É então a pobreza emprestando à miséria? disse ele com voz rouca, retendo a mão de André nas suas e apertando-a com energia.
Depois, enxugando as pálpebras com as costas dos seus felpudos dedos, exclamou:
—Ora adeus! sou um espertalhão, e por mais depressa que a fortuna corra, apanha-la-hei ainda uma vez. O seu nome e morada, mancebo? André respondeu apenas com um grito abafado.
Pálido, com o coração palpitante, seguia com os{20} olhos uma mulher, cujo vestido roçara por ele ao passar.