Mas, quando as folhas, ainda franzidas, começavam a romper do seio dos rebentos, quando as aves ensaiavam já os seus gorjeios, e o ar amornecendo espalhava as nuvens sobre um fundo de pálido azul, o moço pintor visitou quotidianamente o jardim do seu vizinho Germinal.

Havia quatro meses que, por uma série não interrompida de milagres, André se tornara indispensável{38} ao misterioso velhote; contava-se com ele, agora, como com um génio do lar.

O pintor não se saciava de admirar Rosa; enlevava-se na contemplação daquela flor animada, que também ia desabrochando ao calor da primavera. Uma manhã estavam eles sós no seu paraíso de doze pés quadrados; um raio de sol, escorregando à beira do telhado, cujas ardósias coloria de azul, deixara-se cair nos laços que lhe armavam os ramos das árvores e as novas vergônteas; debatia-se, o imprudente raio, no meio de um folhedo de verdura; e a brisa, segredando, mofava do seu desatino. Ouvia-se já o zumbido das abelhas, e delicados perfumes se exalavam das flores, que tinham aberto as suas corolas durante a noite.

«Eu também, dizia André, possuo um jardim, um velho jardim, que povoam copadas árvores!... Rodeia a casa onde nasci; muitas vezes ali passeio... em sonhos. Se lá voltasse, parece-me que cada tronco estremeceria sob o seu invólucro de musgo, que o lagarto viria alegre mostrar-se à fenda do muro, que a aranha desceria da sua teia rendilhada para acorrer jubilosa, que a água do tanque se agitaria de contente, que a parreira enlaçaria os seus esteios carunchosos, e tudo ali me bradaria com voz comovida: «Bons dias, André! Sê bem vindo!... Pobre André! já não és a criança que nós encantávamos; já não tens as faces rosadas, a fronte límpida,{39} a franca alegria, a gargalhada espontânea de então! Agora... és um homem! cresceste, lutaste, sofreste; os companheiros dos teus brinquedos já se esqueceram do teu nome; o camponês, que te trouxe às costas, passa e não te conhece. Mas nós, amigos humildes como somos, conhecemos-te ainda, André; deixaste entre nós a melhor parte das tuas recordações, e irás encontra-las lá em baixo, naquele banco carunchoso, onde tua mãe te embalava cantando.»

Rosa escutava-o comovida, entrançando um ramo de pervincas.

—Oh! continue, murmurou ela. Amo essa casinha e esse velho jardim. Quando me fala deles, os seus olhos impregnam-se de infinita doçura; dir-se-ia que reflectem, como a água límpida de um regato, a imagem daqueles companheiros da sua infância.

—É porque, junto de si, querida menina, respondeu Sauvain, tudo o que na minha alma há de sagrado, me sobe aos lábios e aos olhos. Ah! se a esperança transparece neles tão claramente como as mágoas, dar-se-á acaso que não descobrisse ainda?...

Não concluiu. Nunca tinha dito tanto!

Rosa, sentindo bater o coração e com as faces em rubor, curvou a cabeça e esperou. Mas André não teve ânimo para continuar. O silencio apenas foi{40} perturbado pelos trilos de uma toutinegra, que esvoaçava por cima dos dois jovens.

—Fale-me do seu jardim? lhe tornou Rosa; conte-me o que ele lhe confiou, a última vez que o viu.