O senhor Germinal, vendo-se só, esfregou as mãos por tal forma, que ter-se-ia jurado estar ali um batalhão de marçanos raspando cones de açúcar. Depois suspirou, bateu na testa e deu algumas voltas pelo quarto, até que aferrolhou a porta, tapando o buraco da fechadura, fechou a janela e correu as cortinas. Tomadas estas precauções, arredou o leito, ajoelhou no sobrado, no mesmo lugar que ocupara a cama, levantou uma tábua, deixando a descoberto uma profunda escavação, meteu por ela o braço e exumou um volumoso rolo de papeis.
Aqueles papeis amarelentos, ensebados, velhos e cheios de nódoas, tinham o selo do banco de França. Eram notas de mil francos.
O senhor Germinal contou-os, recontou-os, espalhou-os, beijou-os, e depois, acamando-os num maço, contou-os ainda outra vez.
Eram noventa e dois.
O senhor Germinal não devia conservar dúvida alguma sobre o seu numero e valor, porquanto os verificava trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.
E quando as notas foram de novo recolhidas no esconderijo, e o leito restituído ao seu lugar, o senhor Germinal consultou o almanaque, e disse em voz baixa:{36}
«Onze anos, sete meses e dezassete dias... Daqui a quatro meses e meio, a minha Rosinha será feliz! E eu?... acrescentou ele estremecendo.»{37}
[VII]
Voltou a primavera. Na da rua dos Mártires havia um jardim, separado do pátio por uma sebe de buxo; e esse jardim era dividido em vários talhões, de modo que cada locatário, mediante um pequeno aumento na renda, gozava de uma pequeníssima nesga de terreno, que podia cultivar a seu bel-prazer.
André Sauvain não participava dessa regalia.