O sorriso de André extinguiu-se, e a voz tornou-se-lhe mais triste.
—Nesse dia, disse ele; o meu velho jardim estremecia sacudido por áspera brisa, e quando transpus a porta, as árvores desfolhadas e as folhas em redemoinho, só me enviaram um gemido, que acolhi com lágrimas...
Rosa ficou pensativa e fitou no rosto de Sauvain as suas pupilas negras e inquietas.
—Há doze anos que isto sucedeu, prosseguiu o pintor. Tinha eu então treze, e era aprendiz em casa de um escultor. Recebera da Normandia uma carta, que beijei; continha apenas estas palavras: «Estou muito doente, meu querido filho, e queria abraçar-te». Um quarto de hora depois, partia eu... a pé, por falta de dinheiro. Andei noite e dia, comendo o meu pão enquanto caminhava, matando a sede na água lodosa dos fossos da estrada, repelindo o sono, que me fechava as pálpebras... Cheguei enfim! A porta estava aberta... entrei chamando minha mãe... vi-a imóvel, branca como a cera, estendida sobre o leito em que eu nasci; ao lado dela, ardia uma tocha... Caí de joelhos{41} no meio do quarto... sem gritos, sem lágrimas, sem ideias... Minha mãe estava morta!
O pintor proferiu estas últimas palavras com a voz entrecortada pela comoção. Rosa pousou-lhe timidamente a mão sobre o ombro.
—Enterraram-na, ao cair da noite, continuou ele... Quando tudo terminou, retomei o caminho de Paris, trazendo a chave de minha casa deserta... menos deserta que a minha alma!
Rosa deixara cair o ramo; os anéis louros do seu cabelo escondiam-lhe os olhos.
—Parece-se com sua mãe, André?
—Não, Rosa; pareço-me com meu pai, um ousado marinheiro que pereceu num naufrágio, e que eu não cheguei a conhecer... A pobre viúva nada mais possuía, neste mundo, além do meu afecto: a sua existência decorrera triste e solitária; éramos pobres; foram-lhe necessários prodígios de dedicação para educar-me; chamava-me a sua alegria, o seu orgulho, a sua consolação... E eu tinha por ela um culto apaixonado; por ela jurara ser rico, respeitado, celebre... Minha mãe morreu!
Rosa estava de pé, um pouco inclinada para o pintor. Este sentiu uma pérola líquida cair-lhe sobre a fronte.