—Como quizeres.

—Hei de atirar-te á cara com essas migalhas.

—De certo m'a quebravas, porque o volume não será pequeno. Ainda assim, vê se me acertas bem, porque bem sabes que tenho ainda o punhal com que feri por tua causa um homem, que teve a pouca vergonha de me fazer rica, e de me prometter para a velhice a felicidade, que tu me destruiste...

A disputa acalorou-se, e a lealdade do tachigrapho não póde, sem deshonestidade, progredir. Fiquemos, pois, aqui, sabendo que Luiz da Cunha sahiu impellido por um forte empurrão, e levou com a porta na cara, quando se voltava para retribuir liberalmente a amabilidade.

O alvitre de Liberata em quanto ao destino do seu expulso amante, era o mais judicioso. Luiz procurou a casa paterna, onde não entrára durante oito mezes. Encontrou seu pae, passeando n'uma sala com dous criados de vigia.{98} Estava completamente doudo: não conheceu o filho, supposto se deixasse beijar na mão, com um sorriso de amargo desprêso.

Os herdeiros presumptivos de João da Cunha, inimigos figadaes do filho bastardo, tinham judicialmente assumido a administração do vinculo. Os bens livres foram dados em penhora ao visconde de Bacellar. O doudo estava sujeito á restricta deliberação d'uma tutela, que lhe concedêra apenas o indispensavel para manter uma vida inutil.

Luiz não podia contar com cousa nenhuma d'aquella casa, a não querer limitar-se aos restos da mesa do pae, e a uma cama, d'onde seria expulso, logo que o doudo morresse.

O annel de ferro, que o apertava, não tinha um élo mal soldado por onde elle se evadisse á desgraça. Não tinha um amigo a quem pedisse um conselho; nem um indifferente que quizesse dar-lh'o. Procuravam-no os credores unicamente; e d'esses, alguns eram tão insoffridos, que se retiravam appellidando-o ladrão, ou fugindo á bôca de um bacamarte com que o devedor insoluvel os ameaçava.

Luiz da Cunha, em casa de seu pae, chegou ao extremo de não ter umas botas, e de pedil-as emprestadas ao seu criado para ceder a um impulso, que o fazia correr sem destino.

Chegaram-lhe as horas da profunda reconcentração. N'essas, a imagem de Assucena era uma braza de fogo sobre a chaga. O algoz não podia comportar a reminiscencia da victima. Recordal-a não era compadecer-se. Era imputar-lhe a causa das desgraças, que o assoberbavam: cerração absoluta de todas as suas esperanças.