Viveu assim dous mezes.
João da Cunha, quando menos se esperava, morreu da ultima congestão cerebral. Dizem que fôra terrivel a ultima hora lucida d'esse homem. O enigma dos dous cadaveres não lh'o perceberam os circumstantes. Ricarda todos suspeitavam que fosse a mãe de Luiz; mas esse outro cadaver, que lhe pedia contas de sua mulher, ninguem conjecturou quem podésse ser.
Seu sobrinho, filho de uma sua irmã, successor no{99} vinculo, mandou immediatamente fechar as portas. Luiz da Cunha teve oito dias de homenagem para resolver o seu destino, e chorar a morte de seu pae, que foi de todos o menor abalo, que podia soffrer aquella alma entorpecida para todas as impressões. A consciencia da desgraça vestira-lhe a sensibilidade nobre d'uma crusta impenetravel. Alli não entrava nada n'aquelle coração ossificado. Se alguma emoção estava reservada para animar a pedra, era o dinheiro, o dinheiro com deshonra, por todos os meios infames, com tanto que podésse tornar ao mundo e convertêl-o em fel, em escarneo, em vingança.
Mas esse dinheiro quem lh'o daria? Nem ao menos a chimera d'uma esperança absurda o lisongeava!
Luiz da Cunha apresentou-se n'um quartel de cavallaria, disse que queria assentar praça. O commandante conhecia-o, e condoêra-se da miseria com que se lhe apresentava um moço, que elle vira disputar em luxo e devassidão com os mais distinctos da sua fileira.
Prometteu-lhe proteccional-o, e elevou-o logo a cabo, com promessas de furriel, na primeira promoção.
Luiz da Cunha era melindrosamente tratado na recruta; mas, orgulhoso ou incivil, respondia com insultos á menor correcção do preceptor. Um dia travaram-se com palavras estimulantes, e por fim com as espadas. O mestre de esgrima foi ferido sériamente por traiçoeira cutilada, e Luiz da Cunha fugiu a cavallo, inutilisando assim a perseguição do momento.
Sem destino na fuga, achou-se em Villa Franca, a cinco leguas de Lisboa. Ahi vendeu o cavallo a um estalajadeiro pela terça parte do valor. Seguiu, Tejo acima, até Santarem. Refez-se de alimento para seguir jornada, e alugava cavalgadura para Coimbra, quando lhe deram voz de prêso, á qual tentou fazer uma resistencia, que lhe custou algumas cronhadas d'arma.
No dia seguinte á tarde entrava no Limoeiro, para ser julgado em conselho de guerra. D'esta vez não o soccorreram as solicitudes de Liberata. Luiz da Cunha pensava no suicidio, e emprasava para elle o momento posterior á deliberação do conselho de guerra. Dizia-se que o mais encarniçado agente contra o desertor era o visconde de Bacellar, que promettêra uma commenda da Conceição{100} ao auditor, se conseguisse que o conselho militar condemnasse o réo a degredo perpetuo.
O padre Madureira, com o seu sestro observador, não podia ignorar o essencial d'este successo. Condoído dos revezes d'aquelle infeliz, contou a Assucena, com sua permissão, os doze mezes da vida de Luiz da Cunha, desde as punhaladas até á entrada na cadêa. Cedendo á sua boa alma, deixava transpirar a compaixão das palavras, e attribuia a expiação á serie de desventuras, que o reduziram a assassino, e mais tarde o levariam á forca.