—Jesus! tu não és tão cruel como estás fingindo, meu querido José... Finges que me não entendes... Paciencia! Queres-me morta.... pois sim.... eu te farei a vontade.
—Ora percebam este disparate! Que tenho eu com o casamento de tua filha?
—Não tens nada; mas se fallares com João da Cunha...
—Fallarei. Não queres mais nada?
—E te compadecêres de minha filha para que ella tenha um bocado de pão...
—Agora entendi... O tal patife só casará com Assucena dotada...
—Não sei, José; não sei se casará com ella sem dote; póde ser que sim; mas são ambos pobres, bem sabes que{57} João da Cunha deve tudo que poderia deixar a seu filho... Não a desamparemos.
—Digo o que disse, Rosa. Não dou nem um pataco para que ella case com o filho da preta, com o amante das mulheres perdidas, com o infamador das senhoras honestas, e com o perdulario, que dissiparia n'um anno toda a minha fortuna, se podésse metter-se em minha casa. É mais facil eu recebêl-a em casa...
—Deshonrada, infamada, perdida...
—Sim; é mais facil recebêl-a assim, que aceital-a casada com esse desastrado galopim, hypocrita, e infame que deshonra a filha da unica senhora que o não repelliu de sua casa. Eu tenho sentimentos... Bem sabes que os tenho desde que estudei latim na travessa do Laranjal... Sei, ha muito, o que é ter nobreza d'alma. Assucena não é minha filha; mas que me appareça esse vil seductor, e verá quantos dentes lhe ficam na bôca.