Tal fôra o estridor da gargalhada, que Rosa Guilhermina volveu a si para contemplar, com os olhos lagrimosos e absortos, o estranho espectáculo de José Bento, que batia com o pé direito no chão e com a mão direita na esquerda, exclamando, entre frouxos de riso:

—Não t'o dizia eu? Ahi está o convertido Luiz da Cunha!... Ahi está a innocentinha Assucena! Sou um criado do senhor convertido, e da senhora innocentinha! Agora pega-lhe com um trapo quente. E dizem que és esperta! Os espertos cáem em cada langará, que não sei o que te diga, Rosa! Ora beija as mãos ao teu Luizinho que t'a pregou na menina do olho! Isto havia de acontecer tarde ou cêdo! Eu sempre tive quizilia com tua filha, e com o mulato; por alguma cousa era.{56}

—Está bom, José; tens razão; não me mortifiques mais porque me matas. Tem piedade de mim que sou mãe. Não és pae; se o fosses, em vez de gargalhadas, chorarias...

—Choraria! pois não! Se fosse pae, mandava o tal bregeiro de presente ao diabo. Havia-lhe de arrancar o coração pela bôca. Se fosse pae—accrescentou o assassino do mestre de latim, morto a garfo—não descançava em quanto os não arrebentasse a ambos. Como não sou, não tenho nem quero ter direito algum sobre tal mulher. Lá se avenha.

—Lá se avenha!—exclamou Rosa, estendendo-lhe os braços supplicantes—Lá se avenha... não é assim, José! Assucena é minha filha, é filha de tua mulher... sou mãe que tenho de sentir a deshonra d'essa desgraçada!... Por compaixão, meu amigo, por compaixão não a abandonemos!

—Que queres tu agora? que eu vá buscal-a para casa na minha carruagem?

—Não... Pelo amor de Deus não zombes com a desgraça...

—Pois que queres?

—Que te unas a mim para fazermos com que Luiz da Cunha case immediatamente com ella.

—E que tenho eu com isso? Eu sou algum padre que os case? Isso é lá com o prior.