—Recebo uma noticia que me obriga a partir amanhã, disse elle.

—Negocio grave?

—Grave.

—Ainda assim, nesta occasião.

—Que tem? D. Clara póde ainda resistir á morte alguns dias; e posto que a minha ausencia não prejudique nada do facto a que alludo, comtudo é mister que me informe e providencie.

—Algum negocio relativo ao inventário?—aventurou Camargo, que nada conhecia mais grave que o dinheiro.

—Justamente, respondeu machinalmente Estacio.

Camargo consolou a filha do desgôsto que lhe causava a partida do noivo; falou-lhe a linguagem da razão; disse que havia assumptos praticos, a que os sentimentos tinham de ceder o passo alguma vez. No dia seguinte de manhã partiu Estacio na direcção da Corte, não sem prometter que voltaria, se a molestia ou qualquer outro motivo obrigasse a familia a demorar-se em Cantagallo.

Ninguem esperava por elle em Andarahy. Entrando na chacara,—era de noite,—viu Estacio que a sala que ficava no angulo esquerdo da frente da casa estava allumiada e tinha gente. A sala ficava ao rez do chão, e as janellas estavam abertas. Elle parou a pouca distância, e pôde distinguir o coronel-major e o Dr. Mattos a jogarem o gamão; a mulher do advogado falava a D. Ursula e Melchior, em um dos lados; do outro estava assentada Helena, tendo Mendonça deante de si.

Estacio deu volta aos fundos da chacara, e entrou pela varanda. Os escravos que o virara chegar deram signal da novidade, com vozes de alegria, que alias não chegaram até ás pessoas da sala. Estas só souberam do recem-chegado quando este assomou á porta. A satisfação de o ver foi geral e sincera em todos. Estacio distribuiu abraços e apertos de mão. Melchior, que se deixára ficar de lado, foi o último com quem elle falou.