—O senhor que tem melhor vista,—disse o academico—desengane-me; aquella moça que alli está, naquelle camarote, não é a andorinha viajante?
—A andorinha viajante? repetiu Mendonça olhando para elle; que quer dizer esse nome?
—É a alcunha da irmã de Estacio. Sera ella que está alli, com uma senhora edosa?
—Mas porque lhe chamam assim?
—Eu sei! Naturalmente porque sae á rua todos os dias. Na verdade, é um passear! Mal amanhece, la vae trepada no cavallinho, com o pagem atraz...
—Quem lhe poz essa alcunha?
—As alcunhas são como as mofinas; não tem autor.
Cahíra o panno; Mendonça despediu-se alli mesmo e sahíu. Na rua repetiu mentalmente as palavras do joven academico. Ao cabo de alguns minutos sorriu; comprehendêra que, apenas suspeitada a sua felicidade, ja a inveja lhe deitava na taça uma gota de veneno. Ergueu os hombros, resoluto a supportar tranquillo essa livida companheira do successo.
Guiou para casa, onde entrou pouco depois. Helena volvêra a occupal-o exclusivamente. So, na alcova de solteiro, inventariou os acontecimentos daquelle dia e achou-se morgado da fortuna. Como precisava conversar com alguem, escreveu uma longa carta a Estacio, narrando-lhe toda a história do seu coração, suas esperanças e a prompta realisação dellas. A alma derramou-se no papel impetuosa e exhuberante. O estylo era irregular, a phrase incorrecta; mas havia alli a eloquencia e a sinceridade da paixão. Quando fechou a carta, anteviu o prazer que ia dar ao amigo, logo que ella lhe chegasse ás mãos, levando a notícia de que as vinculos atados na aula iam apertar se na familia. «Vem quanto antes, dizia elle ao terminar a missiva; tenho ancia de abraçar-te e ouvir de ti mesmo o consentimento que me fara o mais feliz dos homens!»
Quando esta carta chegou a Cantagallo, Estacio voltava de uma pequena excursão, que fizera com o pae de Eugenia. Conheceu a letra do sobrescripto; abriu negligentemente a carta; leu-a com assombro. Á impressão foi tão visivel, que Camargo lhe perguntou de que se tratava.