—O que tenho para dizer é longo e triste,—retorquiu Estacio; mas, se deseja sabel-o desde ja, peço-lhe ao menos que espere a presença do padre Melchior. Eu não poderia dizer duas vezes as mesmas cousas; seria revolver o punhal na ferida.
A curiosidade de D. Ursula cresceu com éstas meias palavras do sobrinho; mas era forçoso esperar e esperou. Foi dalli ao quarto de Helena, Como a porta estivesse fechada, espreitou pela fechadura. Helena escrevia. Ésta nova circumstância veiu complicar as impressões de D. Ursula.
—Helena está encerrada no quarto, e escreve, disse ella ao sobrinho.
—Naturalmente, respondeu este com sequidão.
O padre Melchior não se demorou em acudir ao chamado de Estacio. O bilhete era instante e a letra febril. Algum acontecimento grave devia ter-se dado. A reflexão do padre era justa, como sabemos; elle o reconheceu desde logo, não só no aspecto lugubre da familia, como na ancia com que era esperado. Os tres recolheram-se a uma das salas interiores.
—Helena? perguntou Melchior.
—Vamos tratar della, respondeu Estacio.
Referir o que se passára naquella fatal manhã era mais facil de planear que de executar. No momento de expor a situação e as circumstâncias della, Estacio sentiu que a lingua rebelde não obedecia á intenção. Achava-se n'um tribunal doméstico, e o que até então fôra conflicto interior entre a affeição e a dignidade, cumpria agora reduzil-o ás proporções de um libello, claro, sêcco e decidido. Innocente ou culpada, Helena apparecia-lhe naquelle momento como uma recordação das horas felizes,—doce recordação, que os successos presentes ou futuros podiam somente tornar mais saudosa, mas não destruiriam nunca, porque é esse o mysterioso privilegio do passado. Reagiu, entretanto, sôbre si mesmo; e ainda que a custo referiu minuciosa e sinceramente o que se passára desde aquella manhã.
Não fôra talhado para tão melindrosas revellações o coração de D. Ursula. Desde o princípio da conversação sentiu o atordoamento que dão os grandes golpes. Esperava, de certo, um grande infortunio de Helena, um episodio de sua familia anterior, alguma cousa que desafiasse a compaixão, sem diminuir o sentimento da estima. Acontecia justamente o contrário; a estima era impossivel e a compaixão tornava-se apenas provavel.
—Mas não! é impossível! exclamou ella dahi a pouco, logo que a razão obscurecida pelo abalo, pôde readquirir alguma luz—não! eu a vi ha pouco; senti-lhe as lagrymas na minha face, ouvi-lhe palavras que só a innocencia póde proferir. E, além disso, seu procedimento irreprehensivel, um anno quasi de convivencia sem mácula, a elevação de seus sentimentos... não posso crer que tudo isso... Não! pobre Helena! Vamos chamal-a; ella explicará tudo. Interroguemos o Vicente.