—Conta-me tudo.

—Saberá depois! suspirou a moça.

—Não tens confiança em tua tia?

Helena ergueu-se e lançou-se-lhe nos braços; duas lagrymas rebentaram-lhe dos olhos, e foram as primeiras que elles verteram naquella meia hora. Depois beijou-lhe as mãos com ternura:

—Póde receber estes beijos,—disse ella,—os anjos não os tem mais puros.

Foram as últimas palavras que D. Ursula pôde arrancar-lhe; a moça recolheu-se ao profundo silêncio em que ella a encontrou. D. Ursula sahiu; e foi dalli ter com Estacio. O sobrinho encaminhava-se para a sala de jantar.

—Vamos para a mesa, disse elle,—não convem que os escravos saibam de taes crises.

D. Ursula referiu o estado em que achára Helena e as palavras que trocára com ella. Estacio ouviu-a sem nenhuma expressão de sympathia. O jantar foi um simulacro; era um meio de illudir a perspicacia dos escravos, que alias não cahiam naquelle embuste. Elles conheceram perfeitamente que algum acontecimento occulto trazia suspensos e concentrados os espiritos. As iguarias voltavam quasi intactas; as palavras eram trocadas com esfôrço entre a sinhá velha e o senhor moço. A causa daquillo era com certeza nanhã Helena, que estava ausente.

Estacio deu ordem para que a todas as pessoas extranhas se declarasse estar ausente a familia. A unica excepção era o padre Melchior. A esse escreveu pedindo-lhe que os fôsse ver.

—Não posso esperar até amanhã, disse D. Ursula; se tens de revellar alguma cousa a um extranho, por que o não fazes a mim primeiro? Dize-me o que ha. Não posso ver padecer Helena; quero consolal-a e animal-a.