Foi Lasègue em 1852 quem primeiro destacou do cahos da melancolia o delirio de perseguições para eleval-o á dignidade de «especie pathologica entre as alienações mentaes».
No seu memoravel trabalho sobre este assumpto, o eminente alienista começa por notar que as idéas de perseguição apparecem como episodio symptomatico e a titulo de phenomeno incidente no alcoolismo, nas loucuras provocadas por certas substancias narcoticas e em muitos delirios parciaes; na doença, porém, que elle descreve pela primeira vez essas idéas não são um syndroma fortuito, mas um facto constante e essencial, um phenomeno preponderante e fixo. A nova psychose tem, de resto, como titulos á autonomia nosographica, symptomas especiaes e uma evolução caracteristica.
Estudando a marcha do delirio de perseguições, Lasègue reconhece-lhe dois periodos: um, de incubação, consistindo n'um mal-estar indefinido e vago, mas absorvente e inquietante, em que o doente se suspeita victima de hostilidades cuja origem não sabe ainda determinar; outro, de estado, em que o delirio definitivamente se installa e systematisa. Ao principio o doente não exprime a idéa de uma perseguição senão com uma certa reserva, hesitantemente, tentando ainda provar a si mesmo que ella é absurda; mais tarde, porém, a duvida esbate-se e o systema delirante apparece definitivamente formado. A duração do primeiro d'estes periodos é essencialmente variavel: tão rapida em alguns doentes que a custo se lhe surprehende o primeiro grau, prolonga-se e arrasta-se em outros, que só muito gradualmente e por uma progressão bem sensivel e bem apreciavel attingem a construcção do seu romance delirante.
Do mal-estar caracteristico do primeiro periodo diz Lasègue que elle se não parece em nada com a inquietação ainda a mais viva do homem normal; é indefinivel, accrescenta, como os symptomas que annunciam e fazem presentir a invasão das doenças graves. O periodo de estado, esse, é como a floração da psychose: o romance systematico desenvolve-se pelo reconhecimento dos perseguidores—a policia, o jesuitismo, os magnetisadores, a maçonaria, os physicos, etc.
Passando ao estudo dos symptomas, Lasègue põe em relevo o papel que desempenham na doença as falsas sensações auditivas. «O orgão do ouvido, escreve o eminente professor, fornece as primeiras sensações sobre que se exerce a intelligencia pervertida. O doente ouve retalhos de conversas que interpreta e se applica; os mesmos ruidos que naturalmente se produzem,—a passagem de um trem, os passos de uma pessoa que sobe ou desce uma escada, uma porta que se abre ou fecha, são objecto dos seus commentarios».[1] Fallando, em seguida, das allucinações auditivas, declara-as as unicas compativeis com o delirio de perseguições; e accrescenta: «Basta que um doente accuse visões para que eu não hesite em affirmar que elle pertence a outra cathegoria de delirantes»[2]. Na mesma ordem de idéas escreve ainda: «Qualquer que seja a epocha em que ellas se declarem, as allucinações pertencem sempre ao quadro das auditivas; não é demais a minha insistencia sobre este caracter, que considero pathognomonico»[3]. Todavia as allucinações do ouvido, tão importantes e de tão vasto papel, não são para Lasègue um phenomeno constante na psychose que descreve: «A allucinação do ouvido, diz elle, não é nem a consequencia obrigada, nem o antecedente necessario do delirio de perseguições»[4]. Os perseguidos podem, segundo elle, não experimentar nunca allucinações; limitando-se a fundar inducções delirantes sobre sensações anditivas reaes, alguns ha que percorrem todos os periodos da doença.
[1] Lasègue, Le délire des persécutions in Ètudes médicales, tom. 1., pag. 554.
[2] Lasègue, Loc. cit., pag. 555.
[3] Lasègue, Loc. cit., pag. 555.
[4] Lasègue, Loc. cit., pag. 555.
Lasègue não refere allucinações além das auditivas: «As outras sensações de que os perseguidos se queixam, diz elle, reduzem-se a impressões nervosas»[3]. De resto, estas mesmas impressões devem antes lançar-se á conta do hysterismo que á do delirio de perseguições: «As mulheres, diz elle, offerecem os exemplos mais frequentes—sopros internos, subitos calores, entorpecimentos, dores atrozes e passageiras e os outros accidentes tão moveis da hysteria»[4].