Tem ainda hoje nos livros da especialidade um caracter eminentemente obscuro e vago a noção da degenerescencia. Nada o prova melhor que o conjuncto de contradictorias opiniões sobre a sua mesma extensão e sobre as suas origens.

Que psychopatas abrange a degenerescencia?

Emquanto certos auctores, á maneira de Mendel, só consideram degenerados aquelles que, pela presença de estygmas physicos de uma extrema decadencia, profundamente se afastam do typo humano commum, outros ha que seguindo a tradição de Morel, descobrem a degenerescencia onde quer que surjam indicios de uma constitucional desharmonia de funcções psychicas, de um originario desequilibrio mental, ainda quando inteiramente compativel com a vida collectiva e mesmo com parciaes superioridades de intendimento.

O terreno que pizam os primeiros tem tanto de seguro e incontroverso quanto de infecundo: reduzida a cobrir, o grupo dos idiotas, alguns loucos moraes, physicamente disformes, e um ou outro delirante precoce, somaticamente estygmatisado, a degenerescencia é um conceito inerte, sem valor em clinica e sem applicações em nosologia psychiatrica. Suggestivo, o ponto de vista dos segundos é, todavia, impreciso, como o revella a comparação dos auctores, pois que, os mesmos loucos são, segundo uns e deixam de ser, segundo outros, comprehendidos no grupo dos degenerados. Assim, emquanto para Magnan não são degenerados uns certos paranoicos, os delirantes chronicos, para Krafft-Ebing são-no todos, como vimos; assim, os intermittentes, que a grande maioria dos auctores allemães e italianos consideram como exemplares degenerativos, formam para Magnan um grupo de transição entre os degenerados e os psychonevroticos; assim, ainda, os obsessivos, que para o psychiatra francez são sempre degenerados, não passam aigumas vezes para Morselli de neurasthenicos vulgares.

Este grave desaccordo sobre a extensão do conceito, repete-se desde que a questão etiologica se aborda.

Que origens reconhece a degenerescencia?

Ao passo que uns, como J. Falret, exclusivamente incriminam a hereditariedade na producção dos degenerados, outros responsabilisam, como Cotard, as doenças infantis, como Boucherau, as doenças do feto, ou ainda, como Christian, o estado mental dos paes no acto da procreação. Pelo seu lado, Magnan reconhece todas estas causas, considerando, todavia, preponderante e typica a hereditariedade,

Ora, para se poder fallar da hereditariedade, como agente de psychoses degenerativas, quando se sabe que ella é a causa por excellencia de todas as doenças mentaes, seria necessario possuir-se um meio de determinar à priori o momento em que ella deixa de ser uma simples predisposição generica para tornar-se um factor especial de anomalias psychicas; por outros termos, seria necessario precisar onde começa o que Magnan denomina a impregnação hereditaria.

Se isto fosse possivel, teriamos na etiologia um excellente criterio para separar as loucuras degenerativas das que o não são: todas as fórmas nosologicas exhibidas por loucos impregnados de herança pertenceriam ao primeiro grupo, como pertenceriam ao segundo as exteriorisadas por simples predispostos. A analyse clinica, denunciando-nos depois a symptomatologia e a marcha das psychoses dos dois grupos, dar-nos-hia meios de reconhecer as equivalencias hereditarias, se ellas existem, como pretendem Boucherau, Cotard e Christian. Nada mais simples: dado que uma psychose offerecesse os caracteres peculiares das hereditarias, seria um degenerado o seu portador; e, quando a herança morbida não podesse ser incriminada, outras causas teriam de invocar-se de igual valor pathogenico.

Mas, precisamente succede que ninguem ainda determinou, nem à priori parece determinavel a tara hereditaria em que a predisposição acaba e a impregnação começa.