A resposta a esta questão, já formulada, talvez, no espirito do leitor, vae permittir-nos completar a differenciação das duas escólas, pondo em mais alto relevo o caracteristico espirito das doutrinas de cada uma.

Dizer que esses delirios persecutorio e ambicioso de marcha aguda estão fóra da Paranoia, porque são diversos d'ella pelo começo, pela terminação, pela hierarchia mesmo dos symptomas, não basta, porque precisamente se discute se a Paranoia deve ter a limitada extensão que uma tal doutrina lhe assignala ou, pelo contrario, alargar-se para abranger novos grupos de factos clinicos. Schüle, Mendel e Cramer (para não citarmos senão os principaes e mais modernos defensores da Paranoia aguda), acceitando como perfeitamente distinctos e até apparentemente contrarios os casos extremos das duas fórmas, sustentam, comtudo, que a fusão d'ellas se estabelece pelo exame dos casos de transição, em que os motivos differenciaes se esbatem.

Ora, sabendo-se que em sciencias naturaes, desde que n'ellas penetrou o criterio evolutivo, deixaram de existir grupos definitivos e fechados, importa considerar este argumento. E é por isso que não podemos prescindir de saber como interpretam os pretendidos casos de Paranoia aguda aquelles que apenas admittem uma Paranoia chronica.

Fritsch, um dos primeiros a combater a noção da Paranoia aguda, designou esses casos sob o nome Verwirrtheit ou confusão mental, fazendo-os depender de uma fraqueza irritavel ou esgotamento nervoso dos hemispherios cerebraes, que póde observar-se como syndroma ou como complicação da maior parte das psychoses e, portanto, da Paranoia. Decerto, a Verwirrtheit offerece, como a Paranoia, idéas delirantes e allucinações; estes symptomas communs, porém, não são da natureza, segundo Fritsch, a permittir a confusão entre uma doença, de marcha gradual, em que se dá uma transformação da personalidade, e um simples estado transitorio, um mero syndroma de innumeras psychoses funccionaes e organicas.

Pelo seu lado, Krafft-Ebing, que á Paranoia dá um logar entre as degenerescencias psychicas ou psychoses constitucionaes, relega os pretendidos casos de Paranoia aguda para o delirio sensorial, Hallucinatorischer Wahnsinn, que elle colloca entre as psychonevroses ou psychoses accidentaes, ao lado da mania e da melancolia.

Como Fritsch, Krafft-Ebing faz esses casos tributarios de uma asthenia cerebral. De facto, segundo elle, o Hallucinatorischer Wahnsinn reconhece por causas as doenças febris, infecciosas, neurasthenisantes; a sua caracteristica é um enfraquecimento cerebral d'emblèe, ou passageiro e curavel ou rapidamente demencial, impedindo todo o trabalho de systematisação delirante. A passagem do Hallucinatorischer Wahnsinn á Paranoia é, pois, impossivel.

Para Kraepelin os pretendidos casos de Paranoia aguda entrariam quer na Hallucinatorische Verwirrtheit, quer no Hallucinatorischer Wahnsinn. A primeira d'estas psychoses é uma confusão mental devida a um esgotamento agudo do cerebro; a segunda é um delirio pouco coherente, da marcha rapida e terminação favoravel, em que as allucinações representam o principal papel, subordinando a si o estado emotivo e as idéas falsas. A distincção entre estas duas doenças não parece muito nitida; como quer que seja, ambas se distinguem profundamente, segundo Kraepelin, da Paranoia, que consiste n'uma lenta e intima transformação da personalidade, sem obnubilação da consciencia e sem perturbações fundamentaes do humor.

Mayser[1] considera os mesmos casos de Paranoia aguda como exemplares de Delirio asthenico, analogos aos produzidos pelas intoxicações medicamentosas ou outras; a obnubilação da consciencia e a confusão mental, devidas a um esgotamento do cerebro, seriam as caracteristicas d'este delirio.

[1] Zur sogennanter hallucinatorischer Wahnsinn.

Meynert[2] pertence ao numero dos que contestam a existencia de uma Paranoia aguda. Os casos expostos como taes, são por elle estudados sob o nome da Amencia, especie de confusão mental, ora idiopathica, ora symptomatica, tributaria de uma fraqueza irritavel, de um exhaurimento do cerebro e podendo manifestar-se tanto por symptomas de stupor, como por excitação acompanhada de vivos e multiplos estados allucinatorios. O predominio de phenomenos neurasthenicos sobre os irritativos explicaria os casos que difficilmente se distinguem da melancolia, como, inversamente, o predominio de phenomenos irritativos sobre os depressivos explicaria os casos que a custo se distinguem dos delirios maniacos, agudos e sobreagudos.