[3] Griesinger,Obr. cit., pag. 382.

Na direcção de Griesinger e pelo caminho que elle abriu seguiram longo tempo os alienistas allemães. «O delirio parcial, escrevia Albers em sobretudo uma fórma de terminação da loucura com excitação ou depressão geraes; quando se encontra esta fórma, uma das duas existiu anteriormente e acabou por uma cura incompleta»[1]. Fallando da metamorphose do Eu que acompanha os delirios systematisados n'uma phase de adiantada chronicidade, Spielmann escrevia no mesmo anno «que ella suppõe a existencia anterior da melancolia ou da mania, sem uma das quaes não póde nunca produzir-se»[2]. Em 1859 Neuman considerava a Verrücktheit «uma cura com perda de substancia da intelligencia», isto é, uma cura incompleta da mania ou da melancolia, um estado secundario ou consecutivo, acompanhado de uma decadencia das faculdades.

[1] Albers, Memoranda der Psychiatrie.

[2] Spielmann, Diagnostik der Geisteskrankheiten.

Crêmos inutil proseguir em citações. As precedentes bastam a dar-nos uma clara idéa da doutrina pathogenica dos delirios, systematisados segundo a psychiatria allemã d'esta epocha. Suspensas na sua evolução para a demencia, a mania e a melancolia atardar-se-hiam nas fórmas expansivas ou depressivas da Verrücktheit, delirio de grandezas ou delirio de perseguições.

Em contraste, porém, com estas idéas, que durante vinte annos dominaram absolutamente a psychiatria allemã, descreveu Snell em 1865, baseando-se em dez casos de observação pessoal, uma nova fórma de loucura essencialmente caracterisada pela apparição primitiva de estados allucinatorios e conceitos delirantes de contheudo mixto, expansivo e depressivo.

Esta fórma, que Snell denomina monomania ou Wahnsinn, é inteiramente distincta da mania e da melancolia. N'ella podem as idéas de perseguição e de grandeza ser contemporaneas ou successivas; quando as ideias ambiciosas succedem ás de perseguição realisa-se uma metamorphose da personalidade vesanica. A evolução d'esta fórma é essencialmente chronica e o seu prognostico infausto. A adopção do termo francez monomania parece indicar a parcialidade do delirio que, segundo Snell, não conduz nunca á demencia, como a do termo allemão (derivado de Vahn: delirio, e Sinn: sentidos) põe em relevo a importancia das allucinações.

Acceitando este modo de vêr, Griesinger penitenceia-se em 1867 da excessiva e precipitada generalisação das suas idéas pathogenicas e acaba por admittir, ao lado da Secundäre Verrücktheit, uma Primäre Verrücktheit, analoga ao Wahnsinn de Snell. Na lição de abertura do seu curso n'esse anno exprimia-se assim o grande chefe da psychiatria allemã: «Áctualmente não considero já como fórmas secundarias as alterações peculiares, muito chronicas e mixtas do delirio persecutorio e ambicioso; ao contrario, convenci-me da origem protogenica d'estes estados que denomino Primäre Verrücktheit».

Perfilhando as idéas de Griesinger sobre a Primäre Verrücktheit, descreveu Sander em 1868, baseado em quatro casos clinicos, uma variedade congenita d'esta fórma sob a designação de Originäre Verrücktheit. Os delirantes perseguidos ou ambiciosos d'este sub-grupo são desde a infancia taciturnos, mysantropos, romanticos, excessivamente phantasistas, faltos de energia, onanistas, n'uma palavra, originariamente enfermos. É na puberdade que os delirios, de longa data preparados, fazem explosão. Sander nota as tendencias remittentes da Originäre Verrücktheit e observa que a demencia está muito longe de ser um dos seus modos de terminação.

Como se vê, a primitividade ou protogénese dos delirios systematisados, admittida desde todo o principio pelos alienistas francezes, é agora acceite pela psychiatria allemã, cujo dogmatismo desde 1845 a 1865 mandava admittir quand méme uma preexistente psychose maniaca ou melancolica em todos os delirios de perseguição e de grandeza.