Precipitado do alto das suas esperanças, vegetou quinze dias sem pensar, sem acção, sem ter consciência do tempo, nem das alternativas do sol e das trevas, que se sucediam regularmente na marcha imutável das horas.
Porém, um dia, despertou de súbito daquela assustadora prostração.
Ergueu-se, frio e resoluto, juntou os quatro retratos{143} de Rosa, que pintara na época da sua felicidade, e dispo-los nos cavaletes, em volta de si, nas condições de luz mais favoráveis; depois, fechou à chave a porta do atelier e desprendeu da parede uma pistola, que cuidadosamente carregou.
Feito isto, pousou a arma sobre a mesa, ao alcance da mão.
Davam onze horas num relógio próximo.
—Á última pancada do meio dia, disse André falando consigo, farei saltar os miolos.
Era uma espécie de prazo, que concedia à Providência. E com efeito, não podia Rosa regressar, nesses sessenta minutos?... O acaso tem tantos recursos!...
Encostou-se sobre os cotovelos, pensativo e com a vista fixa nos quatro retratos... Acariciando com o olhar aqueles rostos, risonhos e suaves, aquelas pupilas límpidas, aquelas frontes resplendentes de inocência, André recomendava-se às recordações da sua amada, e os seus lábios murmuravam palavras ininteligíveis.
Deu meio dia.
André pegou na pistola.