Toucard guardou o dinheiro; porém os dedos tremiam-lhe, e os seus olhos lampejavam humedecidos.
—De que me serve viver, retorquiu ele, se não me perdoa?... se não recobro o sono, que me foge?
O pintor encolheu os ombros.
—O que está feito, está feito! respondeu-lhe com voz abatida. Toda a minha raiva, todo o meu ódio, todo o meu desprezo, não ressuscitariam uma parcela sequer da minha felicidade perdida!... Vá em paz; perdoo-lhe!
O aventureiro ficou imóvel, e como fulminado de espanto, no limiar do atelier. Contemplou Sauvain, o qual se encostara ao canapé, e, com o semblante meio oculto pelos seus longos cabelos, parecia ter-se tornado insensível ao mundo exterior.
—Este, sim!... que tem um coração de oiro sem liga! murmurou ele com singular expressão. Se a sorte lhe não sorri... é uma grande velhaca, com mil bombardas!
E saiu.{142}
[XX]
Imaginem um homem caído do alto de uma torre, uma massa de carne ensanguentada, que ainda respira. Os olhos vêem tudo cor de sangue; os ouvidos só recebem rugidos confusos; a inteligência flutua ao acaso; e o corpo inerte, despedaçado, inútil, sofre demasiado para continuar a viver, mas não o bastante para conseguir morrer.
Assim estava André Sauvain.