Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata maciça, galopava, ao longo dos boulevards, numa carruagem puxada por doze cavalos... André perseguia-o, correndo a bom correr... Queria gritar: «Agarra, que é ladrão!» mas a sua garganta não soltava o menor som... E Pedro fugia sempre, semeando às mãos cheias, por sobre a multidão, noventa e duas mil notas do banco, carimbadas com o nome de Sauvain...{130}

[XIX]

Quando o pintor acordou, estava transfigurado. Do mesmo modo que, em face dele, o sol se alevantava majestosamente por cima do mar, rompendo as névoas pardacentas, enrolando-as como um manto, e descobrindo a imensidade líquida, sobre a qual espargia milhares de gotas de oiro; assim, no coração de André, a tristeza, o abatimento, o desanimo, tudo se evaporara ao sol da esperança.

Uma resolução firme substituíra todas as suas indecisões. O seu programa era:

1.º—Encontrar Pedro Toucard: o que devia ser fácil, vista a excentricidade da sua pessoa, e a atenção que não podia deixar de atrair sobre si.

2.º—Fazer-lhe restituir o dinheiro, que levara.

3.º—Lançar uma matilha inteira, se preciso fosse, na pista do senhor Germinal; ir ter com{131} ele, ainda que estivesse na Gronelândia, agarra-lo à viva força, desposar Rosa, e ser feliz.

Nada mais simples!

André saiu, portanto, alegre e despreocupado; aspirou deliciosamente os perfumes do ar salino da costa, enviou um olhar reconhecido ao céu de azul-turquesa, e descendo por atalhos desertos, entrou no cemitério da aldeia, cujas campas, abrigadas pela igreja musgosa, alvejavam ao romper do sol.

Ali, num canto isolado, parou, mais por instinto do que por fiel recordação, ante um montículo invadido por ervas parasitas e por parietárias. Uma cruz de madeira, negra e carunchosa, jazia quebrada entre as plantas incultas; o nome, outrora gravado nos braços dessa cruz, já não se distinguia.