Uma hora depois, André avistava o seu casebre.{119}
[XVIII]
Lá estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O vento da Costa não o derrubara de todo.
Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do céu, com o seu tecto de verde musgo, e as árvores desfolhadas do velho jardim. Uma brisa áspera, precursora do inverno, fazia bater as portas das janelas, arrancadas dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam tranquilamente as suas teias nos buracos dos vidros quebrados.
Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano. Balouçava-se pacífico, com o seu monótono e solene murmúrio: da superfície das ondas elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual gigantesco sudário.
André parou, possuído de religiosa comoção; abriu a porta carunchosa e entrou em casa. Um{120} odor indefinível se exalava daquele recinto, onde ninguém penetrara depois da morte de sua mãe. À luz indecisa do dia, que acabava, André pôde distinguir o grande leito de colunas, com os seus cortinados de ramagens e flores fantásticas, a arca de nogueira, o crucifixo com palmas bentas, os escabelos maciços, e as redes da pesca, herança de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapeçaria por acabar. Parecia que a obreira saíra de casa... momentos antes.
André beijou aquele pedaço de estofo, que as mãos de sua mãe tinham bordado.
Depois fechou a porta e sentou-se pensativo junto da chaminé. E aí, mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na lareira vazia, transportou-se em espírito ao sombrio passado.
O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor estalido do vigamento, André comprazia-se em fantasiar que sua mãe estava ali; que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e que ele ia sentir na fronte o doce contacto dos seus lábios...
Entregue completamente às suas recordações, dizia de si para consigo, que, se Deus recompensa o martírio, a pobre mulher devia ser bem feliz no outro mundo.