Ai dele! sua mãe era morta!

Àquela recordação pura, tanto tempo abandonada{117} por amor de uma ingrata, André corou de remorsos.

Lembrou-se do tempo, em que o seu máximo desejo fora cobrir com uma campa as cinzas da viúva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as ruínas da casinha onde vivera com ela.

O oiro necessário possuía-o agora.

Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta esperava.

—Coragem! exclamou André. A caminho!...

E, numa linda manhã de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando sob a blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga satisfação em pensar que ia morrer no tugúrio em que nascera. Para cumprir escrupulosamente o seu voto, empreendeu a viagem a pé, como no tempo em que era tão alegre, quanto pobre. Nesse tempo, sua mãe não tinha rival no coração do pintor; a sua imagem adorada sorria-lhe de entre as árvores do caminho. Agora não acontecia o mesmo: a seu pesar, uma outra imagem substituía a primeira. Queria chorar pela santa guarda da sua infância, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde concentrava o pensamento no termo da sua peregrinação; a cada passo voltava insensivelmente a cabeça para trás. Em vão evocava o semblante frio e macilento da morta; a memoria só lhe reproduzia um rosto animado, com olhos negros e cabelos louros...{118}

Assim caminhou André por muitos dias, descansando nas estalagens dos almocreves, bebendo na palma da mão, dormindo no meio dos campos matizados de amarelo e púrpura.

Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o entusiasta! Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os efeitos da luz, nem a poesia campestre que a terra emanava por todos os seus poros, no intervalo abençoado, que vai da ceifa à vindima. Somente, quando por acaso descobria dois namorados, ocultos entre as ervas, uma dor atroz lhe apertava a garganta, e fugia blasfemando.

Enfim, uma tarde, à hora do crepúsculo, André atravessou a última aldeia, que o separava de sua casa: os camponeses sentados à soleira das suas portas, as velhas fiando na roca, as crianças semi-nuas, as frescas mocetonas de riso sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando a si mesmos para onde se dirigiria aquele forasteiro, tão pálido e com os pés embranquecidos da poeira.