Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ninguém opôs dificuldades à remoção dos moveis. André seguiu-os com os olhos até à esquina da rua; levavam-lhe a última esperança.

Depois recomeçou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o dormir, foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam gritar e a quem se não paga. Mas a natureza tem os seus limites; este estado de exaltação originou uma febre cerebral, e o pobre André desceu rapidamente o declive que conduz ao cemitério.

Felizmente, sua mãe moldara-o em bronze: a doença apenas o apalpou de leve, e, não obstante a senhora Poussignol ter chamado dois médicos, o pintor escapou. O seu físico restabeleceu-se à{113} custa do moral: André, sempre profundamente melancólico, atirou-se ao trabalho como quem se atira a um poço.

Este género de suicídio não era dos menos eficazes: André prosseguia nele com uma pertinácia de mau agouro, e qualquer outro convalescente, menos bem construído do que ele, não duraria três semanas com semelhante afã.

Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo. A fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do espírito. E a arte ganhou com isso: a pintura de André ressentiu-se das tribulações da sua vida. Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fúria de concepção, um arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que não teriam de certo brotado das plácidas inspirações de um espírito tranquilo. O homem feliz já não existia: revelou-se o artista.

Enfim, o acaso também entrou em cena. Como André, a tudo indiferente, não corria atrás do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a fama e o dinheiro correram atrás dele.

Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de quadros, que até ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas telas por preços fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodígio!... e aumentou-os de seu moto próprio.{114}

Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava já na opinião de alguns ricos amadores, e que, se André quisesse, o oiro, de ora em diante, seria para ele uma realidade.

O pintor encolheu os ombros, pagou as dívidas que contraíra durante a doença, e voltou à sua lida obstinada.

O verão acabou lentamente. A julgar pelo número de encomendas, os créditos de André não diminuíam; apenas concluído um dos seus quadros, era logo vendido. O seu Faust au sabbat tornou-se propriedade de um capitalista misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o anónimo.