—A prova é que tenho aqui a chave da casa.
O pintor arrancou a chave das mãos da senhora Poussignol, que ficou pasmada. Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho.
O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama não fora desfeita.
André, lívido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou nele com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele mimoso retiro abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas, que lhe recordava a ausente, encostou-se à parede, inclinou a cabeça sobre o peito e perdeu os sentidos.{111}
[XVII]
Durante quinze dias, André Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um cão que perdera seu dono.
Quem visse aquele gigantesco moço, com a fisionomia espantada, os cabelos flutuantes, o bigode arrepiado, e o vestuário em desalinho, correr como um doido atrás de qualquer transeunte, mirá-lo em face, e logo voltar-lhe as costas para correr atrás de outro, teria acusado mentalmente de negligencia os guardas e o porteiro de Bicêtre.
Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou escrupulosamente os móveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um acto de venda perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se agarrou, com ambas as mãos a essa suposta tábua de salvação! Interrogou,{112} suplicou, afagou, ameaçou, e maçou de mil maneiras o infeliz comprador para extorquir-lhe a nova residência do fugitivo, ou ao menos algum indício, que o guiasse na busca de Rosa.
Todavia, a vítima não lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um ebanista do faubourg Saint-Antoine; comprara em globo a mobília do senhor Germinal, que lhe anunciou estar em vésperas de empreender uma longa viagem.
Podiam cortar o ebanista em mil pedaços, ou oferecer-lhe os tesouros de Golconda, que ele não saberia dizer mais nada.