Um anno corrêra tambem para Luiz da Cunha. As duas existencias, comparadas entre si, afiguram-se-nos o mytho de duas almas: uma tirando para Deus um vôo; a outra afundando precipitadamente na região das trevas, na infinita desesperação.

O rival do official maior de secretaria estabeleceu a sua residencia em casa de Liberata, noite e dia. O carinho com que ella o tratára na convalescença dos ferimentos, obrigára-o a sentimentos de gratidão, e a taes protestos de retribuir-lh'a em premios de inestimavel preço, que Liberata, tão incapaz de avalial-os como quem lh'os promettia, ria com cynica desenvoltura da sua rehabilitação, projectada por Luiz da Cunha.

O neto dos Faros, durante a sua enfermidade de vinte e tantos dias, entrára na região philosophica dos deveres sociaes, e confeccionára certas maximas de alta importancia para a sua futura felicidade.

A sociedade, que nos abomina, não tem direitos ao nosso respeito. Primeira maxima.

O escandalo, quanto mais estrondoso, mais grato áquelle que o dá, porque assim insulta uma hypocrisia astuciosa com que Tartufo e D. Basilio douram a pilula aos seus parvos admiradores. Segunda maxima.

Todo o homem tem direito a ser um infame, na opinião publica, quando é feliz na sua particularissima, e unica respeitavel. Terceira.{93}

A felicidade está em nós, não se reflecte dos juizos estranhos. Quarta, muito parecida com outra da sã philosophia. Os extremos tocam-se.

A mulher mais digna de nós é aquella que melhor serve as nossas propensões, quer viva na crypta subterranea das vestaes, quer se ostente de seios nús no estrado do alcouce. Quinta.

O homem que pede á opinião publica consentimento para amar uma, ou a outra, é um tolo. Sexta.

Et cetra.