D. Perpetua não tocou n'essa caixa quadrada, com dimensões bastantes para conter uma riqueza que lhe não servia de nada a ella. Mostrou-a, sem abril-a, dias depois da morte de seu irmão, a Assucena. «O seu patrimonio está aqui, minha filha. Eu fui a depositaria, mas a menina é a dona. Meu bom irmão não teve animo para lhe dar os seus ultimos conselhos. Já morreu, já lá está na presença de Deus; mas elle vê e ouve o que fazemos e dizemos. Parece-me que bem cedo vou ter com elle. Tenho sonhado todas as noites, que meu irmão me chama para si... É tempo de cumprir as ordens do nosso amigo. Depois da minha morte, Assucena será tambem minha herdeira. Eu tenho uma quinta no Lumiar, onde fui nascida e creada, e onde desejo morrer. Partirei para lá o mais cedo que possa ser, Assucena vai comigo, porque sua mãe me deu consentimento. Se Deus chamar a contas a minha alma, digo-lhe, em nome de meu irmão, que viva n'essa quinta, que fuja d'esta terra d'onde vai fugindo a religião e o temor dos juizos divinos. Tome como director da sua vida o padre Madureira, que aprendeu a ser virtuoso com meu irmão. Com o tempo, a menina ha de entrar na casa de sua mãe, e então estará livre de todas as perfidias do mundo; mas, em quanto o não fizer, viva recolhida com a sua boa alma no seio do Senhor; esqueça-se dos seus desgostos, dando-se ao prazer de dar esmolas{91} sem ostentação, que foi sempre a constante virtude do santo, que Deus nos levou para a côrte celestial. Ha quasi um anno que vive n'esta casa: já agora ha de fechar os olhos ás duas pessoas, que mais lhe quizeram, e que a deixam no mundo a pedir ao Senhor pelas suas almas. Nunca se ha de esquecer dos seus amigos, porque meu irmão está no ceo pedindo por nós, e brevemente pediremos ambos pelo nosso anjo.»
A singela prática acabou por lagrimas, que a interromperam.
Os sonhos de D. Perpetua são o inexplicavel effeito de uma causa superior ao entendimento.
Como o seu desejo era morrer onde nascêra, a irmã do conego mudou para o Lumiar, com Assucena, e o padre Madureira, constante companhia das duas senhoras, depois da morte do seu mestre e amigo.
D. Perpetua Trigoso, durante dous mezes, foi exemplar em obras de caridade, como se devesse ser essa a ultima lição de Assucena.
Setenta e tantos annos, com todos os achaques de velhice, explicam a rapida consumpção que, n'esses dous mezes, convenceu Perpetua de que em verdade seu irmão a chamava. Sacramentou-se uma tarde, com symptomas ainda de vitalidade para alguns dias. Entregou-se o seu testamento ao padre Madureira. E fechou o cyclo das suas virtudes, convidando a sua attribulada amiga a presenciar a morte d'uma mulher sem a consciencia d'uma injustiça. Só ella conheceu o seu fim, como se o anjo da bemaventurança lh'o segredasse. Morreu, abençoando Assucena, e passando-lhe ás mãos a cruz que não podia já suster no braço hirto pela aridez cadaverica.
Assucena era herdeira de quarenta mil cruzados. Nunca se julgou tão desvalida. Não sabia a significação encyclopedica da palavra «dinheiro.»{92}