—Não duvido da sua palavra.

O brazileiro passou a noite d'esse dia encostado ás arvores fronteiras do palacete de Antonio da Cunha. De madrugada vira entrar um embuçado, que se lhe afigurou João da Cunha. Ao escurecer d'esse dia viu sahir o mesmo vulto suspeito, e seguiu-o. No Campo Pequeno viu-o entrar numa sege de praça, que desappareceu pela estrada transversal.

Na noite immediata, a pouca distancia da sege, que esperava João da Cunha, estava um cavalleiro encoberto pelo muro da quinta do conde das Galveas. A sege partiu e o cavalleiro seguiu-a de longe, para que o tropel do cavallo se não tornasse suspeito.

A meia legua, na azinhaga de Campolide, parou a sege. João da Cunha entrou n'um largo portão, que se abriu no momento em que elle apeava. Caminhou por debaixo de{11} uma extensa parreira, que formava uma fresca abobada de folhagem á entrada da casinha campestre, em que morava Ricarda.

O brazileiro de certo não viu a casinha, porque o portão fechára-se nas costas de João da Cunha. O boleeiro entrára com a sege n'uma cavalhariça a cincoenta passos distante do portão. O marido de Ricarda adquirira aquella imperturbavel paciencia, que vem depois dos frenezis da vingança. Quasi um anno de meditação e estudo na desforra, que mais convinha á sua honra, era sobeja reflexão para não perder com uma imprudencia a victoria que, tão depressa, lhe deparára o acaso do annel.

Retrocedeu para Lisboa.

No dia seguinte passou, a pé, defronte do portão onde entrára João da Cunha. Estava fechado. Circuitou o baixo muro que marcava a pequena quinta. Trepou no lanço que lhe pareceu mais accessivel. Não viu alguem. As janellas da casa, á hora do calor, estavam fechadas com persianas verdes interiormente corridas. Desceu para subir outra vez ao muro que fechava a quinta na parte mais remota da casa. Saltou dentro. Os cães de fila acorrentados ladraram; mas o aviso não inquietou ninguem.

O brazileiro embrenhou-se n'um caramanchão, enxugando o suor que lhe empastava a camiza. Permaneceu ahi cinco horas.

Ás nove ouviu o rodar da sege; ouviu ranger os gonzos do portão; ouviu abrir-se, mais perto, a porta e janellas como se até alli não vivesse ninguem n'aquella casa, cujo aspecto risonho bem poderia ser mentiroso.

Minutos depois ouviu passos distantes, que faziam rumorejar a folhagem. E estes passos eram cada vez mais proximos. Viu dous vultos. Eram já distinctas as suas palavras: