—Conheço, sim...

—Desculpe estas perguntas, porque eu quero comprar o annel, e não o faria sem a certeza de que ámanhã me fizessem as perguntas que eu lhe fiz.

Pouco depois, o ourives recebia dous contos de reis por um annel que comprára por cincoenta moedas. Contente da veniaga, esquecêra-se da reserva que lhe fôra pedida, quando o comprou, a respeito do vendedor. A alegria fizera-o indiscreto e expansivo. Dous contos de reis{10} era dinheiro para trinta Judas, e demais o ourives não sabia o valor do segredo.

—Visto que me comprou o annel, vou dizer-lhe quem m'o vendeu; mas v. s.ª guarde segredo, não porque seja um furto; mas porque é um melindre. Este annel foi-me vendido por um dos primeiros fidalgos de Lisboa; mas o homem pediu o segredo do seu nome, para que o não julguem em más circumstancias. A v. s.ª posso dizer-lhe o nome...

—De certo póde, mesmo porque eu estou em vesperas de embarcar para o Brazil, que é o meu paiz.

—Lá me pareceu logo que v. s.ª era brazileiro... Por cá não ha quem dê assim dinheiro por uma obra de gosto... Pois, senhor, o ex-possuidor d'este annel foi Antonio da Cunha e Faro, e quem aqui m'o vendeu, com ordem sua, foi seu filho João.

—Penso que conheci em Coimbra esse cavalheiro—disse com mal fingida serenidade o marido de Ricarda.

—Póde ser, porque segundo ouvi dizer, o tal senhor João da Cunha estuda em Coimbra.

—Pensei que esse sugeito não estava em Lisboa.

—Ha quinze dias de certo estava; se quer fallar com elle para ir seguro do que lhe digo, ainda que eu lhe prometti de não dizer quem me vendeu o annel, póde v. s.ª procural-o em casa de seu pae no Campo Grande.