Á edade paleolithica pertencem armas e instrumentos de silex, principalmente machados, talhados toscamente pela separação{6} de lascas tiradas pela percussão. Estes instrumentos tinham evidentemente por fim o cortar, e alguns, de pontas mais aguçadas, o de furar. Alguns ha, com fórma similhante á das raspadeiras, que deviam servir para preparar as pelles de animaes, com que se vestiam os primeiros homens. Os vestigios correspondentes a esta epocha pre-historica fazem crer que o modo de viver da especie humana foi então de extrema simplicidade, que eram desconhecidos os animaes domesticos e a agricultura, que os homens vagueavam pelas florestas virgens, alimentando-se com os fructos silvestres e com o producto da caça, e abrigando-se nas cavernas naturaes, cuja posse ás vezes se viam obrigados a disputar aos animaes ferozes. A alimentação dos que viviam á beira do mar ou dos lagos consistia em peixe e marisco. O estado social devia ser o mais rudimentar possivel; apenas se pode considerar n'aquella epocha esboçado o viver da familia. Aquelle modo de viver era por certo ainda mais simples e primitivo do que o dos actuaes selvagens da Nova Caledonia.

Um pouco mais perfeito foi de certo o viver na edade neolithica. As armas e os utensilios d'aquella epocha são distinctos dos da edade paleolithica por certas particularidades de fórma e pela maior perfeição do trabalho, a qual já denuncia um mais adeantado estado de educação, havendo entre os fragmentos de loiça e entre os objectos de ornato incontrados alguns que revelam uma certa industria, ainda rudimentar, mas já com algum desinvolvimento. Julga-se que n'estas epochas se practicou já o commercio, por se encontrarem n'algumas localidades substancias que eram produzidas em sitios distantes, assim como vestigios da existencia de officinas levam a crer que effectivamente a industria se delineava já com feições pronunciadas.

Aos ultimos tempos da edade neolithica pertencem os chamados kjoeckkenmoeddinger («restos de cozinha»), que são grandes aglomerações de conchas de differentes mariscos, misturadas com carvão, incontradas nas costas da Dinamarca, e tambem mais recentemente no valle do Tejo, junto a Mugem, pelo já citado geologo Carlos Ribeiro. Pertencem tambem á mesma epocha as palafittas, ou povoações lacustres, achadas pela primeira vez no lago de Zurich em 1853, e que consistem em reuniões de cabanas junto das margens dos lagos, construidas sobre base de estacaria mergulhada na agua. Nas palafittas incontram-se notaveis vestigios, que provam o relativo adeantamento da especie humana n'aquelles tempos. É assim que a existencia de cereaes demonstra que já havia{7} agricultura; a de tecidos, que a industria se tinha adeantado; a de fragmentos de animaes domesticos, um viver social em via de progresso.

A existencia de utensilios de metal nas palafittas indica que a epocha d'estas se prende chronologicamente ao começo dos tempos historicos, ou pelo menos ao periodo que precedeu a aurora das mais antigas civilizações do Oriente. Começa n'esse ponto a edade de bronze, ou aquella em que as armas e os diversos utensilios, até então construidos exclusivamente de pedra, começam a ser substituidos por outros fabricados de bronze.

A edade de bronze variou muito em duração nos diversos paizes da Europa, sendo n'alguns povos uma epocha inteiramente historica, e pertencendo, pelo que respeita a outros, á Archeologia Pre-historica. No seu todo deve considerar-se como um periodo de transição entre os tempos pre-historicos e os tempos historicos.

Os povos que figuram na Historia da Antiguidade provêm de uma das tres raças semitica, chamitica e japhetida (mais geralmente denominada aryana ou indo-européa), as quaes por isso se dizem raças historicas. A existencia d'estes tres troncos primitivos é revelada pela tradição biblica e confirmada pelas modernas investigações ethnographicas. Quando, decorrido longo periodo depois da creação do homem, Deus, offendido pelos vicios que haviam lavrado em toda a especia humana, resolveu castigál-a com o diluvio, apenas quiz que escapasse Noé, que era justo, com sua familia. Terminado aquelle cataclismo, só os tres filhos d'elle ficaram incumbidos de povoar o mundo, e cada um d'elles—Sem, Cham e Japhet—indo estabelecer-se em pontos differentes deu origem a uma raça. Sem ficou na Asia e foi o pai da raça semitica; Cham passou á Africa e originou a raça chamitica; e finalmente Japhet, estabelecendo-se no oriente da Europa, deu origem á raça japhetida, ou aryana, ou indo-europêa, assim denominada, porque na sua expansão ulterior se estendeu até ás Indias.

A raça semitica—(ou os semitas)—apparece-nos, no decorrer da Historia Antiga, povoando um vasto territorio cingido de um lado peia alta Mesopotamia e pela parte meridional da Arabia, e do outro pelas costas do Mediterraneo e pelo rio Tigre. Eram d'esta raça os habitantes do imperio da Assyria e de parte da Babylonia, os Hebreus, os Lydios e parte das populações da Syria. Presentemente esta raça está representada pelos Judeus e pelos Arabes. A sua importancia historica{8} deriva principalmente das religiões que n'ella tiveram origem e do desinvolvimento a que estas chegaram. N'ella nasceram a antiga religião moysaica, o christianismo e o mahometanismo. Na Edade-Média um ramo d'esta raça—os Arabes—, invadindo a Europa, trouxeram-lhe grande copia da sciencia grega, contribuindo assim para a civilização d'esta parte do mundo.

A raça chamitica—(ou os chamitas)—povoou na Antiguidade a Ethiopia, o Egypto e a Nubia, e incorporou-se tambem na população de Babylonia e da Arabia meridional. Na actualidade está representada pelos fellahs do Egypto, pelos habitantes da Nubia, pelos abexins e pelos tuaregs.

A raça aryana—os aryas, os indo-europeus—foi representada na Antiguidade pelos Indus, Persas, Romanos e Gregos; e actualmente está-o sendo pelos descendentes d'estes povos e pelos Germanos e Slavos. Os povos indo-europeus são os mais importantes sob o ponto-de-vista historico; extendem hoje o seu habitat desde o norte da Europa até ás margens do Ganges; é no meio d'elles que se passa o grande movimento do progresso social, e a sua expansão colonizadora extende-se até aos confins do Novo Mundo, para onde têem transplantado as maravilhas do progresso e os mais perfeitos methodos de cultura intellectual.

Ha nas tres raças historicas de que temos falado um grande numero de variedades, devidas, não só a cruzamentos, mas tambem a modificações filhas da differente acção dos climas e da diversa influencia do meio.