Metello, outro general romano, expulsou os Carthaginezes da Sicilia; mas, emquanto isto se passava, a frota romana, commandada por Claudio Pulcher, era completamente destruida junto de Lilybea. Por fim, depois de uma grande victoria dos Romanos, commandados pelo consul Luctacio, sobre os Carthaginezes sob o mando de Amilcar, celebrou-se{31} a paz com a condição dos segundos cederem aos primeiros todas as ilhas situadas entre a Italia e a Africa e pagarem-lhes durante dez annos um tributo annual de 2:200 talentos.
A segunda guerra punica teve a seguinte origem. Os Carthaginezes, para compensação das perdas soffridas em resultado da primeira guerra, trataram de alargar os seus dominios na peninsula hispanica. Amilcar Barcas subjugou uma grande parte d'ella e Asdrubal edificou Carthagena. Os Romanos, que não podiam ver com bons olhos o novo ingrandecimento dos seus rivaes, começaram a inquietar-se com aquellas conquistas e exigiram dos Carthaginezes que firmassem tratados, pelos quaes se obrigassem a não extender as suas conquistas alêm do Ebro e a respeitarem Sagunto, que era alliada de Roma. Mas Annibal, filho de Amilcar, depois de se haver apoderado de varias outras povoações, poz cêrco a Sagunto e deatruiu-a. Isso foi motivo para a segunda guerra punica.
Annibal, tomando a offensiva, invade a Italia e ganha differentes victorias, chegando Roma (não obstante o talento do pro-dictador Fabio) a estar seriamente ameaçada. Mas o senado de Carthago hesitou em mandar a Annibal os soccorros pedidos; este teve que procurál-os na Sardenha, na Sicilia e na Macedonia, e mandou ir da Hespanha seu irmão Asdrubal com um novo exercito de Hespanhoes e de Gaulezes. A desorganização, a heterogeniedade d'estes elementos, e a sua indisciplina, valeram aos Romanos nas apertadas circumstancias a que haviam chegado. Alêm d'isso o soccorro levado por Asdrubal não poude chegar ao seu destino, porque aquelle general, detido no caminho por um exercito romano sob o mando dos dois consules, teve que dar-lhe batalha em que morreu, sendo desbaratada toda a sua gente.
Entretanto Publio Scipião com um exercito romano passou a Africa e foi cercar a propria cidade de Carthago. Annibal teve que deixar a Italia para acudir em soccorro da capital da sua patria, e alli foi derrotado nas planicies de Zama. Passou-se isto no anno 202 antes da era christan. Esta victoria de Scipião poz termo á segunda guerra punica.
No seu regresso a Roma, Scipião foi alvo das mais esplendidas ovações, e deram-lhe o cognome de Africano.
Depois da paz de Zama, pode dizer-se que a existencia de Carthago foi uma lenta agonia. Massinissa, rei da Numidia, expoliou-a de muitas povoações e de grande extensão de territorio; os Carthaginezes appellaram para Roma, porque Massinissa era alliado dos Romanos; mas o senado de Roma, promettendo-lhes{32} justiça, deixou que aquelle rei permanecesse na posse dos territorios de que se tinha apoderado. Para apparentar uma arbitragem, inviou Catão a Carthago; mas este, vendo a cidade rica e prospera, sentiu reviver o odio contra a rival de Roma. E voltando, sempre terminava os seus discursos no senado pela phrase, que ficou celebre: delenda Carthago («deve ser destruida Carthago»). Tendo os Carthaginezes repellido um novo ataque de Massinissa, Roma pretextou que houvera violação do tratado de paz de Zama e declarou a terceira guerra punica, que, depois de varia sorte, terminou por um cêrco a Carthago, no qual os Carthaginezes foram reduzidos pela fome. Scipião Emilio, o segundo Africano, general romano, tomou a cidade e arrazou-a. Commissarios do senado de Roma tomaram posse do territorio carthaginez e fizeram d'elle uma provincia romana, com o nome de Africa. Foi isto no anno 146 antes de Christo.
[CAPITULO VI
OS SYRIOS]
Nada se conhece ao certo dos tempos primitivos da historia da Syria. A historia dos seus reis confunde-se inteiramente n'aquella epocha com a dos monarchas assyrios. Até ao desmembramento dos estados de Alexandre, a Syria foi successivamente invadida pelos reis de Ninive, pelos de Babylonia, pelos Persas em tempo de Cyro, e finalmente pelo dito Alexandre. Depois da morte d'este, Nicator Seleuco (um dos seus generaes) começou a fundação do grande reino da Syria, appellidado tambem «reino dos Seleucidas» do nome do seu fundador. A Nicator Seleuco succedeu no throno Antiocho Soter, que bateu os Bithyneos, os Macedonios e os Galates.
O rei mais celebre da Syria foi Antiocho, cognominado o Grande. Depois de ter conquistado a Judéa, a Phenicia e diversos outros paizes, concebeu o plano de submetter ao seu dominio as cidades livres da Grecia asiatica, Lampsaco, Smyrna e outras. Pediram estas cidades soccorro aos Romanos, e estes inviaram embaixadores a Antiocho, convidando-o a que deixasse aquellas cidades em paz e a que restituisse a Ptolomeu Philadelpho o territorio que por conquista lhe tinha tirado. Antiocho respondeu, declarando guerra aos Romanos. Seguiu-se uma lucta em que aquelle rei foi vencido por Scipião{33} o Asiatico, que só lhe concedeu a paz depois d'elle haver dado satisfacção aos Romanos. Mais tarde Antiocho Epiphanes usurpou a Demetrio o throno da Syria; teve varias guerras com os extrangeiros e tomou Jerusalem. N'aquella cidade mandou matar grande numero de habitantes, roubou os vasos sagrados do templo; e, voltando á Syria, deixou a Judéa governada, em seu nome, por seus generaes, que exerceram muitas perseguições contra os Judeus. Ordenou por uma lei que todos os povos sujeitos ao seu imperio usassem as mesmas superstições gentilicas seguidas n'este; e, depois de ter profanado o templo de Jerusalem, mandou n'elle collocar uma estatua de Jupiter Olympico. Por medo das perseguições, muitos Judeus abandonaram o culto do verdadeiro Deus e lançaram-se no seio da idolatria; outros, fieis ás suas crenças e ás suas leis, soffreram por isso tormentos crueis. Alguns d'estes tornaram-se muito notaveis, pela sua corajosa resistencia ás ordens do conquistador, e pelo valor com que soffreram o martyrio. O velho Eleazar, varão de mais de 90 annos, foi apresentado em Antiochia ao rei Antiocho, como réu de observar a lei moysayca e de não querer sacrificar aos falsos deuses. Não sendo possivel obrigál-o a comer das carnes prohibidas nem a fingir que o fazia, foi cruelmente martyrizado. Septe irmãos, conhecidos pelo nome de «Irmãos Machabeus», juntamente com sua mãe, que os exhortava á perseverança na lei e na fé, soffreram os mais atrozes supplicios até expirarem, desprezando as promessas e as ameaças com que o rei os queria vencer.
Mathatias (sacerdote da tribu de Levi), sendo já de edade muito avançada, matou a um israelita que na sua presença, obedecendo ás ordens de um soldado de Antiocho, ia para Sacrificar aos falsos deuses, e em seguida matou tambem o mesmo soldado. Feito isto, retirou-se com seus cinco filhos Judas Machabeu, João, Simão, Eleazar e Jonathas; e, juntando os Judeus que ainda seguiam o verdadeiro Deus, foi restabelecendo por toda a parte o verdadeiro culto e derrubando os altares e estatuas dos falsos deuses. Cahindo doente, recommendou á hora da morte aos filhos que com as armas defendessem a patria e a religião contra os tyrannos. Judas Machabeu tomou logo o commando das tropas; e, com grande valor, foi lançando fóra da Judéa os Syrios. Venceu varios generaes de Antiocho em differentes batalhas, e reparou e purificou o templo de Jerusalem. Morreu entretanto Antiocho; e, ainda depois d'isso, Judas Machabeu proseguiu na guerra contra os Syrios, dos quaes libertou completamente a Judéa.