[CAPITULO III
OS ASSYRIOS E BABYLONIOS]

O imperio assyrio no principio apenas comprehendeu o territorio situado a leste do rio Tigre; mais tarde veio a ser formado por todo o territorio que ficava entre aquelle e o Euphrates, e comprehendeu, juntamente com a Assyria propriamente dita, a Chaldéa, a Mesopotamia, a Babylonia e differentes paizes tributarios. A Chaldéa foi, como o Egypto, um dos primeiros paizes em que começou a desinvolver-se com certo grau a civilização; os Chaldeus e os Babylonios passam por ser os primeiros povos que fizeram descobrimentos astronomicos; deve-se-lhes a divisão do anno em 365 dias, 6 horas e alguns minutos. É muito incerta a chronologia da historia dos Assyrios: segundo os livros santos, a fundação de Babylonia e{23} de Ninive realisou-se pelo seculo XXII antes de Jesus Christo, Nemrod foi fundador da primeira e Assur da segunda. Nada certo se sabe sobre a historia dos povos que habitaram aquellas cidades e ainda outras, anteriormente ao tempo de Belo que, por 1780 antes de Jesus Christo, creou o imperio da Assyria, reunindo o reino de Babylonia com o de Ninive.

Nino, successor de Belo, alliou-se com os Arabes, derrotou os Armenios e os Medos, estendeu o seu dominio por grande parte da Asia, e levou as suas conquistas desde o Egypto até ás Indias. Augmentou consideravelmente a cidade de Ninive, que dotou com palacios e outros edificios sumptuosos. Depois de tomar a cidade de Bactres (capital da Bactriana), casou com Semiramis, viuva do governador da mesma cidade e uma das mulheres mais bellas d'aquelle tempo, da qual teve um filho chamado Ninias. Pela morte de Nino, ficou Semiramis herdeira do imperio, que augmentou com conquistas novas; subjugou a Arabia, o Egypto e a Lybia; illustrou o seu reinado não sómente por grandes acções militares, mas tambem pela administração do paiz e pelas assombrosas construcções, das quaes ainda hoje existem ruinas muito notaveis. Tornou Babylonia uma cidade magnifica e grandiosa, cingiu-a com uma muralha de 15 leguas de circumferencia, de altura consideravel, e com cem portas de bronze em toda a sua extensão. Era tão larga essa muralha que sobre ella podiam passar quatro carroças a par. Construiu tambem Semiramis uma ponte magnifica sobre o Euphrates (rio que atravessava a cidade) e em cada uma das extremidades d'ella dois palacios. Um d'estes era a habitação ordinaria da rainha e deposito das consideraveis riquezas que esta recebia de todas as provincias do imperio; o outro, incimado por oito torres de consideravel altura, era um templo consagrado a Belo, e em cujo interior Semiramis tinha mandado collocar estatuas de oiro, de quarenta pés de altura, representando varias divindades. Todo o interior do templo era cheio de baixos-relevos com grande valor artistico, de magnificas estatuas e de vasos de oiro e de prata primorosamente trabalhados. A cidade era muito bella e cortada de lindas ruas e praças, ornadas de opulentos palacios; mas o que sobretudo maravilhava eram os jardins estabelecidos em terraços elevados sobre o Euphrates e sustentados por abobadas de altura prodigiosa. Ornados das mais bellas arvores, inriquecidos com abundancia das mais vistosas flores, eram cortados de limpidos arroios, alimentados por agua levada áquella altura por meio de aqueductos e de apparelhos ingenhosissimos. Davam ingresso no jardim suberbas escadarias,{24} ornadas de estatuas e de vasos preciosos, em que vegetavam as mais raras flores e arbustos de todos os paizes então conhecidos.

Na construcção d'aquellas muralhas e de outras com que opulentou Babylonia, empregou Semiramis 2.000:000 homens durante muitos annos. Immortalizou-se aquella rainha, não só n'isso, mas tambem na sabia administração que exerceu nos seus estados e na organização dos seus exercitos, em que reinou sempre a disciplina mais rigorosa e mais severa e que ella em pessoa commandou muitas vezes.

Tendo-se ausentado no commando de uma expedição destinada a alargar os limites dos seus estados, soube que na capital se estava urdindo uma conspiração para a depôr e substituil-a no governo por seu filho Ninias. Não quiz ella conservar pela força o throno, que ninguem lhe poderia disputar; e, intregando voluntariamente o governo ao filho, absteve-se de punir os conspiradores, e retirou-se do mundo. A população surprehendida e maravilhada pelo seu subito desapparecimento—que considerou sobrenatural—erigiu-lhe templos e prestou-lhe honras divinas.

Ninias foi apenas um simulacro de rei. Passou a vida na ociosidade e na indolencia, e foi o primeiro que estabeleceu o governo do serralho. Seguiram-se-lhe trinta e tres reis que nada fizeram pelo bem do paiz e de que a Historia apenas faz menção. O ultimo foi Sardanapalo, cujo nome ficou lendario e serve para caracterizar os soberanos que põem de lado os cuidados da governação, para se darem tão sómente á ociosidade e aos prazeres physicos. Sardanapalo, indolente e crapuloso, estabeleceu a sua residencia em Ninive, onde passava a vida mettido n'um palacio, cercado de mulheres, cujos habitos e adornos imitava, deixando em Babylonia o governo intregue a valídos que de tudo dispunham. Nunca visto de seus subditos, sempre incerrado no palacio, onde passava as noites em libações e folgares, não lhe importavam nada os negocios publicos, e só tratava de esconder aos olhos dos subditos os seus ignominiosos habitos. Um dia Arbaces, governador da Média, surprehendeu-o no meio de um grupo de mulheres impudicas, trajando como ellas. Indignado por ver que tantos valorosos Assyrios estavam sujeitos a um monarcha desprezivel, revelou aos seus amigos os vergonhosos habitos de Sardanapalo, ligou-se com Belesis (governador da Babylonia), e ambos foram pôr cerco ao rei no proprio palacio em que habitava. Depois de tenue resistencia, Sardanapalo reduzido a circumstancias extremas, quiz apagar com um esforço supremo{25} de coragem a memoria da sua vergonhosa vida. Mandou accender n'um dos pateos interiores do palacio uma grande fogueira, na qual se queimou com suas mulheres, seus escravos e seus thesouros.

Dos restos do imperio assyrio assim desfeito, formaram-se tres grandes reinos: o de Babylonia, o da Média, e o de Ninive ou da Assyria propriamente dita. De Babylonia tornou-se rei Belesis, que transmitiu o poder á sua dynastia, na qual só houve notavel o rei Nabonassar, que deu o seu nome a uma era especial começada no anno 747, e sob cujo governo a astronomia fez grandes progressos. Mais tarde cahiu Babylonia em poder dos reis de Ninive.

Na quéda de Sardanapalo, o principal promotor d'ella, Arbaces, ficou senhor do reino da Média, e tentou concentrar alli a supremacia assyria sobre o resto da Asia. Deu certas franquias liberaes aos Medos, os quaes por si mesmos trataram de fazer leis, dividiram-se em seis tribus, e crearam juizes para lhes dirimirem os pleitos. Depois da morte de Arbaces, elegeram elles para rei a Dejoces, um dos seus juizes, que fundou a cidade de Ecbatane, onde se estabeleceu com sua familia e seu erario, e concentrou a parte mais importante da população, constituindo alli a capital da Média. Aquella cidade, pela sua opulencia e pelos seus monumentos, tornou-se em breve tão celebre como Babylonia e como Ninive.

Dejoces teve por successor a Phraorto, ao qual succedeu seu filho Cyaxaro I, que conquistou a Persia. Desde então a historia da Média confunde-se com a do segundo imperio assyrio. Sobre a parte do antigo imperio assyrio, de que Ninive era capital, ficou reinando, por morte de Sardanapalo, Nino o Moço. Os seus successores tentaram reunir aos seus dominios Babylonia, o que chegaram a conseguir em tempo de Assar-Haddon. Entre os reis de Ninive, houve notaveis: Phul; Teglath-Phalasar, que conquistou Damasco; Salmanazar, que subjugou os Israelitas (como atraz vimos); e o terrivel Sennacherib. Reinando Sarac, Nabopolassar (governador da Babylonia) ligou-se com Cyaxaro I, rei dos Medos, e ambos foram pôr cerco a Ninive. Esta cidade foi tomada depois de uma sangrenta batalha, e completamente destruida. Assim acabou, depois de 1:800 annos de existencia, esta celebre e opulenta cidade. Nabopolassar tomou o titulo de rei da Babylonia, que se appropriou de toda a importancia e vantagens que desfructava Ninive e se tornou a capital do segundo imperio assyrio.

Nabuchodonosor succedeu a seu pae Nabopolassar, tonando-se{26} celebre pela conquista do reino da Judéa e pela tomada de Jerusalem (cujos habitantes levou captivos para Babylonia) e por se haver apoderado da Phenicia e destruido a cidade de Tyro. Balthazar foi o ultimo rei do segundo imperio assyrio que, subjugado por Cyro, cahiu no dominio dos Persas.