—«Valentina aqui?» dizia ella, deslisando rapidamente{15} por entre a multidão cada vez mais compacta dos compradores. Era guiada pelas duas grandes plumas pretas que guarneciam o chapeu da senhora de Chalinhy «depois de se ter recusado a sahir comigo a pretexto de ter que fazer visitas? Era então uma desculpa por não querer andar comigo... Reconheço bem que está mudada. Tem suspeitas. Já o disse a Norberto depois da estada em Deauville... Esta recusa em sahirmos juntas e depois que lá esteve... Quando se quer saber a verdade sobre as coisas importantes é necessario lançar mão dos mais insignificantes pretextos... Pelas suas maneiras, quando nos encontrarmos, verei o que ha em tudo isto...».

Este monologo envolvia um d'esses terriveis segredos que a vida elegante muitas vezes occulta com as suas formulas banaes. Ao termina-lo, as suas faces, habitualmente descóradas, estavam rosadas; os seus movimentos tinham tomado uma tal celeridade, que, apesar dos obstaculos, já quasi se encontrava junto d'aquella que perseguia.

Alcançal-a-hia em alguns segundos apenas, quando, repentinamente, começou a demorar o passo, como se uma nova idéa a determinasse a augmentar a distancia que a separava da senhora de Chalinhy.

É que, envolvendo sua prima n'um olhar observador, estudando-a, sem que ella a visse, a baroneza de Node, acabava effectivamente de sentir uma nova sensação, a principio confusa e inconsciente, depois definida e precisa, a ponto de se tornar o inicio d'uma curiosidade tambem nova,{16} mais extraordinaria e mais viva ainda: parecia-lhe que a outra atravessava a multidão como alguem que procure confundir-se n'ella, a fim de fazer perder a pista a quem pretenda seguil-a.

A marqueza levava um vestido escuro, que não attrahia as attenções.

O véo de málhas apertadas que escondia o seu rosto, parecia ter sido escolhido propositadamente para tal fim. Caminhava ligeira, como uma pessôa que tem pressa, e sem olhar para nenhum d'esses mil objectos differentes que se achavam expostos por toda a parte em torno de si.

—«Aonde irá ella?...»

Ainda esta pergunta não tinha penetrado no pensamento de Joanna, e já ella lhe respondia mentalmente da fórma porque o fariam noventa e nove por cento das parisienses.

—«Aonde póde ir uma mulher bonita, de trinta annos, e que se occulta?

«Será possivel que Valentina, a gráve e prudente Valentina, vá para uma entrevista amorósa ou regresse d'ella?»