«Mas que mulher julgas então que eu sou? Dei-te, por ventura, o direito d'assim me julgares? E ella!... Oh! É triste, profundamente triste! E eu não merecia tanta ingratidão!...»

—«É naturalissimo que assim penses», respondeu Chalinhy, em voz ainda mais baixa. Sentia-se incapaz, n'este momento, de discutir factos{142} evidentes que não eram nada moraes, incapaz de protestar a sua innocencia com respeito á ligação com Joanna de Node. Necessitava muito saber a verdade para poder mentir. E depois, como negar a conversa com a amante, junto da porta do quarto da esposa, e de que esta ouviu algumas palavras? Como justificar a mudança subita do seu procedimento, depois da visita de Joanna, precipitando-se na investigação, que se via obrigado a confessar, visto que entrára em casa sómente com o fim de a concluir? Accrescentou, solemnemente: «As apparencias são contra mim; e comtudo...» Hesitou um momento, e depois, em voz mais elevada como para confirmar a solemnidade do juramento, accrescentou:

«Juro-o sobre a cabeça dos nossos filhos! Não, o meu procedimento não foi dictado pelo desejo de me tornar livre, não teve uma tão abominavel intensão. Não obedeceu a um plano anteriormente concebido. Fui um louco, assevero-te... As tuas visitas a essa rua escusa, as precauções de que te rodeavas, este segredo da tua vida... Quando cheguei em frente d'essa casa não consegui dominar a duvida cruel que me torturava... Interroguei os lojistas da visinhança, e soube quem vivia ali... Não me interrompas. Era a espionagem, a infame espionagem, sinto-me aviltado pela ter exercido! Emfim, bati á porta: dei o teu nome para entrar, recebeu-me e vi o sr. Dumont. Quem é. Valentina dize quem é?...»

Á medida que o marido fallava, contando tudo, com as faces ruborisadas e com os olhos incendidos{143} pela febre de saber a verdade, o rosto da joven marqueza mudava de expressão.

Á colera indignada dos primeiros momentos, seguiu-se uma anciedade que se approximava do terror, quando ouviu a phrase irreparavel. «Recebeu-me...»

Soffreu uma emoção tão violenta que todo o seu corpo tremia convulsivamente. Depois, condensando a vontade n'um supremo esforço, teve a coragem de defender ainda o segredo, que não era seu, contra o apaixonado inquerito de Chalinhy.

—«Desde que viste o sr. Dumont, sabes já quem é... Um doente a quem fiz a esmola d'algumas visitas, em cumprimento d'uma promessa solicitada por pessoa que já morreu... Deixa-me cumprir este dever de caridade até ao fim. Não o cumprirei durante muito tempo; por isso tem tu tambem a caridade de mais nada me perguntares...»

—«Obedecer-te-hei», respondeu Chalinhy, «se me jurares tambem sobre a cabeça de nossos filhos, como eu fiz, que essa pessoa de quem fallas, essa morta que te exigiu o cumprimento de um tal voto não era...»

Hesitou um segundo, depois, muito baixo, murmurante:« não era minha mãe? Mas não jures, não pódes jurar... Sei que era ella... Não foi só o sr. Dumont que vi na casa da rua Lacépède. Vi tambem minha mãe... Está lá o seu retrato, um retrato que não conhecia, em casa d'esse homem que ainda conhecia menos! Não é só o seu retrato que lá se encontra, mas tambem o teu e o meu...»{144}

E, de repente, illuminando-lhe a memoria um d'esses clarões de reminiscencia que nos fazem recordar n'um instante promenores d'um facto esquecido ha annos. «Mas eu conheço muito bem esse homem: Recordo-me perfeitamente d'elle. É Raynevilhe.» E repetiu. «Raynevilhe. Raynevilhe vinha a nossa casa n'outro tempo e depois desapareceu... Sim, espera. Recordo-me agora... Um processo... uma condemnação... Desde que sei o nome reconstituirei tudo... Não era porem nosso parente» continuou elle seguindo o seu pensamento, «e minha mãe continuou a vel-o secretamente até fallecer?... Pediu-te depois que o visitasses tu, quando não podesse lá ir já?... A questão Raynevilhe?... Sim, foi condemnado... Mas qual o motivo? Qual o motivo? Não me recordo. Sabel-o-hei, vou já a casa do meu advogado. Elle consultará a collecção da Gazeta dos Tribunaes. Quero saber...»