—«Oh! senhor», respondeu o creado, «não ousava{130} fazer-vos esse pedido!... Mas depressa, depressa. Ao meio dia e meia hora ainda o encontra em casa. É o doutor Salvan, e mora no boulevard de Saint-Germain, n.º 30.»
[VIII
O enygma]
Da rua Lacépède á casa do extremo sul do interminavel boulevard de Saint-Germain, onde vivia o celebre especialista de doenças nervosas, para ficar mais proximo da Salpêtriére, seu hospital, a distancia não era grande. Durante os dez minutos que demorou em a percorrer, Chalinhy não tentou mesmo raciocinar a respeito da série de factos, para elle absolutamente incompreensiveis, que acabavam de dar-se. Na confusão de todo o seu pensamento em face do enygma a cuja decifração se entregou apaixonadamente, um ponto luminoso apparecia muito ao longe: recordava-se de ter visto já o rosto do paralytico surgido deante d'elle, no fundo d'essa bibliotheca estranha, onde com espanto encontrou o retrato de sua mãe, o seu, o da esposa e dos filhos... Mas quando? Aonde? Procurava, no mais recondito da sua memoria, a physionomia d'um homem ainda novo, no qual a mascara do velho e moribundo, se justapunha.{131} Era uma d'estas recordações longiquas, tão cheia de incertezas, em que a realidade se confundia com o sonho... «Dumont... Dumont...?» Chalinhy, repetia este nome mentalmente. Não conseguia associal-o ás imagens tão vagas e portanto indistinctas já, que se agitavam na sua reminiscencia.
Em scenas mal definidas, cujos detalhes inconscientes e incompletos se esfumavam na sua intelligencia, figuravam conjunctamente sua mãe e o marido de sua mãe—aquelle que sempre acreditára e que ainda hoje acreditava, ser seu pae. Mas como se chamava então esse homem que tinha os mesmos traços de nobresa e o mesmo olhar profundo do doente? E eis que, de repente, acudiam a essa reminiscencia syllabas indistinctas: «Magneville?... Raneville?... Layneville?...» Ao mesmo tempo—porque mysterioso trabalho do seu espirito angustiado?—via a figura de seu pae, do defunto marquez de Chalinhy, fallecido ha tanto tempo já. A que proposito se recordava, e por que sentia de novo, depois de muitos annos o indefinivel incommodo que sempre sentira na presença d'esse homem do qual nunca tivera a minima razão de queixa, a não ser talvez a preferencia que manifestava pelo seu irmão mais velho? Mas, apesar d'isso, elle e o irmão não tinham tido a mesma educação, e vivido, na casa paterna nas mesmissimas condições? Sem duvida, se seu irmão não tivesse morrido pouco tempo antes do pae, teria sido bem mais contemplado do que elle na herança paterna. Um documento encontrado entre{132} os papeis do marquez, provava bem que havia querido legar ao filho primogenito toda a parte dos seus haveres de que, em face da lei, podia livremente dispor. Mas Norberto conhecia muito bem as idéas do fallecido gentil-homem para se admirar d'esta tentativa de reconstituição do direito de primogenitura.
Que ligação estabelecia então, de repente, entre as manifestações de friesa por parte de seu pae e os acontecimentos em que a denuncia da esposa, feita pela amante, o tinha envolvido? Não saberia dizel-o, nem tambem que hypothese se esboçava dolorosamente, obscuramente, na sua imaginação, hypothese logo posta de parte, por ser tão sacrilega como insensata?... Absurdo pesadelo, que a paragem do trem em frente da casa do professor Salvan, fez dissipar!
—«Saberei alguma coisa por elle», disse comsigo. «Contanto que lá esteja!...»
O medico estava effectivamente em casa. Logo que Chalinhy lhe fez apresentar o seu cartão, no qual escreveu: Da parte do sr. Dumont, que está muito mal, foi immediatamente recebido. Ao primeiro golpe de vista, o marido de Valentina viu logo que o homem de 45 annos que a baroneza de Node vira chegar n'uma carruagem de aluguer ao pavilhão da rua Lacépède era o medico. O professor Salvan tinha na realidade mais dez annos; mas, perfeitamente conservado por uma existencia continuamente activa e quasi ascetica, não indicava tanta edade. Era magro e robusto, com uma cabeça pequena, e cujo rosto attrahente e imberbe{133} recordava a physionomia napoleonica do seu mestre Charcôt.
No mundo das grandes celebridades medicas e parisienses, onde os ultimos annos tantas notabilidades se tem manifestado, Salvan figurou sempre em separado, associando, como o seu amigo e condiscipulo Eugenio Corbiére, que voltou já ás antigas normas, o catholicismo mais accentuado ao mais solido talento de clinico e de anatomista.
Mais celebre do que conhecido, os seus immensos trabalhos conservaram-no sempre affastado dos salões e o gosto pelas investigações puramente scientificas, da clientela.
A morte do seu unico filho, em 1898, em circumstancias bem crueis—envenenara-se, longe dos seus, n'um hotel de Napoles, por desespero d'amor—tornou-o ainda mais concentrado.