Sophia olhou para elle, com tamanha vontade de acceitar o convite, que Rubião não esperou resposta verbal.
—Está assentado, vamos, disse elle.
—Não.
—Como não?
E repetiu a pergunta, porque Sophia não lhe quiz explicar a negativa, aliás, tão obvia. Obrigada a fazel-o, ponderou que o marido ficaria com inveja, e era capaz de adiar o negocio só para ir tambem. Não queria atrapalhar os negocios delle, e podiam esperar oito dias. O olhar de Sophia acompanhava essa explicação, como um clarim acompanharia um padre-nosso. Vontade tinha, oh! se tinha vontade de ir na manhã seguinte, com Rubião, estrada acima, bem posta no cavallo, não scismando á toa, nem poetica, mas valente, fogo na cara, toda deste mundo, galopando, trotando, parando. Lá no alto, desmontaria algum tempo; tudo só, a cidade ao longe e o ceu por cima. Encostada ao cavallo, penteando-lhe as crinas com os dedos, ouviria Rubião louvar-lhe a affouteza e o garbo... Chegou a sentir um beijo na nuca...
[CAPITULO CXL]
Pois que se trata de cavallos, não fica mal dizer que a imaginação de Sophia era agora um corsel brioso e petulante, capaz de galgar morros e desbaratar mattos. Outra seria a comparação, se a occasião fosse differente; mas corsel é o que vae melhor. Traz a ideia do impeto, do sangue, da disparada, ao mesmo tempo que a da serenidade com que torna ao caminho recto, e por fim á cavallariça.