—Pelo moleque! bradou o pae. Pelo moleque! Grande favor! «Moleque, vae alli á casa daquelle reformado e pergunta lhe se a filha tem passado melhor; não vou, porque estou lustrando as unhas!» Grande favor! Tu não lustras as unhas! tu trabalhas! tu és digna filha minha! pobre, mas honesta!
Aqui o major chorou, mas suspendeu de repente as lagrimas. A filha, commovida, sentiu-se tambem vexada. Certo, a casa dizia a pobreza da familia, poucas cadeiras, uma meza redonda velha, um canapé gasto; nas paredes duas lithographias encaixilhadas em pinho pintado de preto, um era o retrato do major em 1857, a outra representava o Veronez em Veneza, comprado na rua do Senhor dos Passos. Mas o trabalho da filha transparecia em tudo; os moveis reluziam de asseio, a meza tinha um panno de crivo, feito por ella, o canapé uma almofada. E era falso que D. Tonica não lustrasse as unhas; não teria o pó nem a camurça, mas acudia-lhes com um retalho de panno todas as manhãs.
[CAPITULO CXXXI]
Rubião tratou-os com sympathia. Não continuou a defender a gente Palha, para não desesperar o major, e fallou do exercito. Pouco depois, despediu-se, promettendo, sem convite, que lá iria jantar «um dia destes».
—Jantar de pobre, acudiu o major; se puder avisar, avise.
—Não quero banquetes; virei quando me der na cabeça.
Despediu-se. D. Tonica, depois de ir até o patamar, sem chegar á frente por causa dos sapatos, foi á janella para vel-o sair.