Carlos Maria pensava na devota incognita. Estava longe, muito longe do ensino e seus estabelecimentos. Que bom que era sentir-se um deus adorado, e adorado á maneira evangelica, mettida a devota no aposento, fechada a porta, em secreto, não nas synagogas, á vista de todos. «E teu pae que vê o que se passa em secreto te dará a paga.» (S. MATHEUS, VI, 6). Oh! elle daria a paga, se soubesse quem era. Casada, sería? Não, não podia ser, não iria confessal-o a ninguem; viuva ou solteira, antes solteira. Cheirava-lhe a solteira. Em que aposento se fechava para resar, para evocal-o, choral-o e abençoal-o? Já nem teimava pelo nome; mas o aposento, ao menos.
—Onde acharei um bom collegio? repetiu D. Fernanda.
—Collegio? Não sei; estou pensando na desconhecida. Comprehende bem que uma pessoa que me adora, em silencio, sem esperanças, é objecto de alguma attenção. Alta ou baixa?
—Maria Benedicta.
Carlos Maria estacou o passo.
—Aquella moça...? Não é possivel. Tenho-lhe fallado muitas vezes, e nunca descobri nada. Achei-a sempre fria. Hade ser engano. Ouviu-lhe o meu nome?
—Não, por mais que lhe pedisse. Confessou o milagre, sem nomear o santo, mas que milagre! Gabe-se de ser adorado como ninguem... De quem é aquella casa?
—Você costuma exagerar as cousas, prima; póde não ser tanto. Adorado como ninguem? E de que modo soube que era eu?
—Theophilo foi o primeiro que descobriu; ella, dizendo-se-lhe isto, ficou como uma pitanga. Negou-o ainda depois, commigo; e desde esse dia não voltou lá a casa.
Tal foi o inicio dos amores. Carlos Maria folgou de se ver assim amado em silencio, e toda a prevenção se converteu em sympathia. Começou a vel-a, saboreou a confusão da moça, os medos, a alegria, a modestia, as attitudes quasi implorativas, um composto de actos e sentimentos que eram a apotheose do homem amado. Tal foi o inicio, tal o desfecho. Assim os vimos, naquella noite dos annos de D. Sophia, a quem elle dissera antes cousas tão doces. São assim os homens; as aguas que passam, e os ventos que rugem não são outra cousa.