Quando o medico voltou, ficou espantado da temeridade do doente; deviam tel-o impedido de sair; a morte era certa.
—Certa?
—Mais tarde ou mais cedo. Levou o tal cachorro?
—Não, senhor, está commigo; pediu que cuidasse delle, e chorou, olhe que chorou que foi um nunca acabar. Verdade é, disse ainda Rubião para defender o enfermo, verdade é que o cachorro merece a estima do dono: parece gente.
O medico tirou a largo chapéo de palha para concertar a fita; depois sorriu. Gente? Com que então parecia gente? Rubião insistia, depois explicava; não era gente como a outra gente, mas tinha cousas de sentimento, e até de juizo. Olhe, ia contar-lhe uma...
—Não, homem, não, logo, logo, vou a um doente de erysipella... Se vierem cartas delle, e não forem reservadas, desejo vel-as, ouviu? E lembranças ao cachorro, concluiu sahindo.
Algumas pessoas começaram a mofar do Rubião e da singular incumbencia de guardar um cão, em vez de ser o cão que o guardasse a elle. Vinha a risota, choviam as alcunhas. Em que havia de dar o professor! sentinella de cachorro! Rubião tinha medo da opinião publica. Com effeito, parecia-lhe ridiculo; fugia aos olhos extranhos, o mais que lhe era possivel; em casa, olhava com fastio para o animal; dava-se ao diabo, arrenegava da vida. Não tivesse a esperança de um legado, pequeno que fosse. Era impossivel que lhe não deixasse uma lembrança.
[CAPITULO X]
Sete semanas depois, chegou a Barbacena esta carta, datada do Rio de Janeiro, toda do punho do Quincas Borba: