Estacio explicou que Helena não tinha inclinação ao noivo que se lhe propunha, ao que Melchior respondeu referindo singellamente a verdade.

—É certo que o não ama ardentemente; concluiu elle, mas aceita-o, aprecia-o, está a meio caminho da felicidade que lhe devemos dar.

—Ha uma difficuldade, padre-mestre; é que ella ama a outro.

Melchior empallideceu; seu olhar escrutador, como o de um juiz, cravou-se immovel e afiado no rosto de Estacio. A fronte severa do moço não se alterou, nem seus olhos baixaram a terra.

—Ama a outro, continuou elle; paixão violenta, mas sem esperança, e tão real qual mysteriosa. Uma ou duas vezes alludiu a ella; mas nada mais lhe pude arrancar. Agora mesmo, quando lhe falei a tal respeito, desviou dahi o sentido e a conversação. Nada mais sei; sei porém que ama, e casar com outro em taes circumstâncias, dá dous inconvenientes egualmente graves: priva-se da possibilidade de uma união feliz com o homem que interiormente elegeu, e leva para casa do marido um sentimento de pezar e de remorso. Parece-lhe isso toleravel?

—Não ha remorso não ha pezar, onde não ha esperança, redarguiu o padre. Helena aceita o Mendonça por expontanea vontade; e conheço-a tanto que não acho ja possivel que ella recuse.

—Salvo o meu consentimento.

—É claro; mas por que o não daria?

—Porque não desanimo de descobrir a pessoa a quem Helena entregou seu coração. Talvez ella ache impossivel aquillo que é simplesmente difficil. Demais, não esqueçamos que Helena mal tem dezesete annos.

—Valem por vinte e cinco.