—Estive-a ouvindo de confissão, respondeu Melchior.
—E pode absolvel-a?
—De certo.
—Mas com grande penitencia, não?
—A mais facil de todas, acudiu Helena olhando para o padre.
—Oh! então é que os peccados são leves! concluiu D. Ursula. Não lhe parece?
Éstas ultimas palavras foram dirigidas a Mendonça, na occasião em que todos caminhavam para a mesa. Mendonça não disse nada. Seus olhos ousavam apenas resvalar pela moça; contra o costume, elle falava pouco,—menos ainda que na vespera e nos dias anteriores. D. Ursula via a differença, mas não a comprehendia.
—Não quero saber que peccados confessou,—disse ella sentando-se; mas estou certa que o maior delles não levaria ninguem ao purgatorio.
—Veja o que é uma tia indulgente, observou Helena a Mendonça, sentando-se a seu lado.
Preoccupado com a conversa que acabava de ter na sacristia e na chacara, Melchior pouca attenção prestou a principio ao filho do commerciante. Seu espirito analysava as circumstâncias do momento e pesava a responsabilidade que lhe podia vir de qualquer resolução que adoptasse. Apos um longo dialogo com a sua consciencia, o velho sacerdote inclinou os olhos ao mancebo, que lhe ficava defronte, ao lado de Helena. Viu-os conversar com essa familiaridade de bom gôsto, que é a pedra de toque dos costumes polidos. Ella mostrava-se graciosa, solicita e attenta, como uma espôsa amante; elle parecia enamorado da voz e das falas da donzella; como que um clarão interior lhe desvendára à alma os horizontes infinitos da esperança. Familiarisado com Helena, tratado por ella com exquisita attenção, era comtudo a primeira vez que ella lhe falava, não como a um confidente amigo, mas como a um homem que poderia vir a ser seu esposo. Alguma seriedade, um olhar submisso, uma attenção continuada, fizeram essa differença que antes foi sentida pelo coração do que descoberta pelos olhos.