—Não sei ler de cór, disse ella, erguendo-se e sahindo da varanda.
Mendonça ficou aturdido. Que lhe dissera elle tão grave que a pudesse offender? Repetiu suas proprias palavras e não lhes achou sentido mau. Certo, porém, de que a molestára, alli ficou aborrecido de si mesmo, desejoso de lhe explicar tudo, se alguma cousa houvesse explicavel. Apos alguns instantes, resolveu entrar tambem. Entrou; Helena não estava nem na sala de jantar, nem na do jogo, onde achou D. Ursula com o Dr. Mattos e o coronel-major. Dalli passou á sala de visitas. Helena não o viu entrar; estava mergulhada n'uma poltrona com a cabeça nas mãos. Commovido, deteve-se alguns instantes a contemplal-a; depois caminhou para ella e falou-lhe.
Helena ergueu a cabeça.
—Perdõe-me, disse elle, se alguma cousa lhe disse que a magoou. Confesso que não sei o que poderia haver em minhas palavras. Ficou triste por isso?
A moca cravou nelle um olhar ainda suspeitoso, e não lhe respondeu logo. Mendonça adoptou o melhor dos alvitres naquella occasião; inclinou-se e recuou para sahir. Helena chamou-o; elle approximou-se outra vez, com um ar de tão doce resignação, que lisonjearia o mais levantado orgulho. Helena estendeu-lhe a mão; elle apertou-a e teve impetos de a beijar uma e muitas vezes, triumphando naquelle unico instante da hesitação de todos os dias; faltou-lhe resolução. Helena mostrou-lhe o trecho da carta em que Estacio se referia a elle; falaram dos ausentes e dos presentes, de todos e de tudo, menos do assumpto que exclusivamente preoccupava o moço. Elle sahiu dalli sem ter dito nada de seu coração. Chegando á rua achou-se poltrão e ridiculo, disse mil nomes feios a si proprio; emfim, prometteu declarar tudo a Helena no dia seguinte.
No dia seguinte, que era domingo, Helena dirigiu-se á capella a ouvir a missa do padre Melchior. Acabada a cerimonia, não seguiu para casa, com D. Ursula, mas foi ter á sacristia, onde o padre acabava de tirar os paramentos. Melchior, logo que soubera da carta de Estacio, nessa manha, pedira a Helena que lh'a deixasse ver.
—Falam sempre ao coração as lettras dos amigos, dissera elle.
Helena deu-lhe a carta, que o padre recebeu com uma expressão antes de curiosidade que de affecto. Leu-a vagarosamente, como escrutando o sentido e as palavras; e sendo longa a epistola, longo foi o tempo que elle despendeu em a interpretar. Durante esse tempo, Helena admirava-lhe a figura austera, a serenidade religiosa, que é a coroa mystica do verdadeiro ecclesiastico. A sacristia era pequena; duas altas janellas deixavam entrar a luz, o ar e o aroma das folhas e das flôres da chacara. Entre a cimalha e o telhado algumas andorinhas haviam fabricado os ninhos, donde sabiam, como pensamentos de juventude, a adejar ao sol da manha. Ao pe daquelle quadro exterior de alegria e verdura, a sacristia tinha certo ar melancholico e severo, que lançava n'alma o esquecimento das vicissitudes humanas. Helena deixou-se captivar desse sentimento de abstenção e elevação; se alguma dor ou remorso a pungia, esqueceu-os, por um minuto ao menos, entra aquellas paredes desataviadas, deante de um padre, entre uma imagem de Jesus e as obras vivas do Creador.
Lida a carta, Melchior dobrou-a com ar pensativo; depois entregou-a á moça.
—Ja respondeu? perguntou elle.