—A senhora tem uma fôrça de resolução, uma fertilidade de expedientes, um espirito capaz de emprezas delicadas, e, tratando-se da felicidade de um irmão. Creio que empenhará todas as fôrças para levar a cabo a mais pura das ambições. Não lhe peço um absurdo, peço-lhe a felicidade de minha filha.

Helena não respondeu; olhou de revez para elle, e cravou depois os olhos no aguia branca tecido no tapete, sobre o qual pousava seu pe impaciente e colerico. Podia referir mais detidamente qual o seu papel juncto de Estacio, a respeito de Eugenia, seus pedidos, e a promessa do irmão, que deveria ser cumprida, se o fosse, em algum dos seguintes dias. Mas nem quiz dar esperanças que os acontecimentos podiam dissipar, nem o coração lhe consentia mais larga confidencia. Ambos elles viam que se detestavam cordialmente; mas se em Helena havia colera abafada, em Camargo havia tranquillidade e observação. Elle contemplava a moça, com o olhar fixo e metalico dos gatos; a mão esquerda, pousada sobre o joelho, rufava com os dedos magros e pelludos. Nada dizia; mas todo elle em uma interrogação imperiosa. Helena olhou ainda uma vez para o médico.

—Dá-me o seu braço até á sala? perguntou.

Camargo sorriu.

—Só isso? Eu dizia commigo outra cousa.

—Que dizia então? perguntou Helena com aquelle ar de esmagadora indifferença que só as mulheres possuem.

—Dizia que muito se devia esperar da dedicação de uma moça, que acha meio de visitar ás seis horas da manhã uma casa velha e pobre, não tão pobre, que a não adorne garridamente uma flamula azul..

Helena fez-se livida; sua mão apertou nervosamente o pulso de Camargo. Nos olhos pareciam falar-lhe ao mesmo tempo o terror, a colera e a vergonha. Atravez dos dentes cerrados Helena gemeu ésta palavra unica:

—Cale-se!

—Falo entre nós e Deus, disse Camargo.