Era Camargo.
Helena abriu os olhos sobresaltada. A voz de Camargo, produzira-lhe a impressão de desagrado, que lhe fazia sempre. Sorriu a moca contrafeitamente, e vendo que elle se dispunha a sentar-se no sopha, não arredou o vestido, como se quizesse deixar entre ambos larga distância: Camargo sentou-se.
—Parece que se assustou? disse elle.
—Um pouco.
Camargo agitou entre as mãos os perendengues do relogio,—tão numerosos como elles se usavam naquelle tempo; depois pegou familiarmente no leque da moça, abriu-o, contou as varetas, tornou a fechal-o e restituiu-o com um elogio. Helena respondeu-lhe com um sorriso. Ia levantar-se, quando elle a deteve com éstas palavras:
—Estimei achal-a só, por que precisava pedir-lhe um conselho.
A testa de Helena contrahiu-se interrogativamente.
—Um conselho e um favor, continuou o médico. Não será, creio eu, a primeira vez que a velhice consulte a mocidade. Demais, trata-se de assumpto em que a gente moça lê de cadeira.
Helena olhou para elle desconfiada. Nunca vim o médico tão affavel, e essa mudança de maneiras e de tom é que lhe fazia medo. Verdade é que elle ia pedir-lhe alguma cousa; e a experiencia ensina que o interesse é muito mais eloquente que o vinho e muito mais meigo que o amor. Camargo não se deteve. Fez uma exposição rapida de suas relações com a familia do conselheiro, do sentimento de amizade que o ligava a ella.
—A perda do meu finado amigo,—concluiu elle, não póde ser supprida por nenhuma cousa; mas ha alguma compensação na affeição que sobrevive e me faz considerar ésta familia como minha propria. Estou certo de que seu irmão e D. Ursula sentem a meu respeito do mesmo modo. Quanto á senhora, é recente na familia, mas não tem menor direito que ella. Vi-a tão pequena!