—Sabem o que estará aqui dentro? disse enfim Camargo. Talvez uma lacuna ou um grande excesso.

Nem Estacio, nem D. Ursula, pediram ao médico a explicação de semelhantes palavras. A curiosidade, porém, era natural, e o médico pôde le-la nos olhos, de ambos. Não lhes disse nada; entregou o testamento a Estacio, ergueu-se e deu alguns passos na sala, absorvido em suas proprias reflexões, ora arranjando machinalmente um livro da estante, ora mettendo a ponta do bigode entre os dentes, com a vista quêda, alheio de todo ao logar e ás pessoas.

Estacio rompeu o silêncio:

—Mas que lacuna ou que excesso é esse? perguntou ao médico.

Camargo parou deante do moço.

—Não posso dizer nada, respondeu elle. Seria inconveniente antes de saber as últimas disposições de seu pai.

D. Ursula foi menos discreta que o sobrinho; apos longa pausa, pediu ao médico a razão de suas palavras.

—Seu irmão, disse este, era boa alma; tive tempo de o conhecer de perto e apreciar-lhe as qualidades, que as tinha excellentes, Era seu amigo; sei que o era meu. Nada alterou a longa amizade que nos unia, nem a confiança que ambos depositavamos um no outro. Não quizera pois, que o último acto de sua vida fôsse um êrro.

—Um êrro! exclamou D. Ursula.

—Talvez um êrro! suspirou Camargo.