—Tambem eu.

—Quaes são os seus sentimentos actuaes em relação a Helena? Oh! não precisa franzir a testa nem fazer esse gesto de aborrecimento. Tudo são meras apparencias. Não creio que seja absolutamente amiga della; mas não póde negar que a antipathia desapareceu ou diminuiu muito.

—Diminuiu, talvez.

—E com razão. Pensa que tambem eu não tive repugnancias depois que ella aqui entrou? Tive-as; mas se não houvessem desaparecido,—desapareceriam hoje de manhã.

—Como?

Estacio referiu á tia a scena do capitulo anterior e as palavras que lhe dissera Helena. D. Ursula sorriu ironicamente.

—Não a impressiona isto? perguntou Estacio.

—Não, respondeu D. Ursula com decisão; a phrase de Helena é achada em algum dos muitos livros que ella le. Helena não é tola; quer prender-nos por todos os lados, até pela compaixão. Não te nego que começo a gostar della; é dedicada, affectuosa, diligente; tem maneiras finas e algumas prendas de sociedade. Além disso, é naturalmente sympatica. Ja vou gostando della; mas é um gostar sem fogo nem paixão, em que entra boa dose de costume e necessidade. A presença de outra mulher nesta casa é conveniente, porque eu estou cançada. Helena preenche essa lacuna. Se alguma cousa, entretanto, a podia prejudicar nas nossas relações é esse dito.

Estacio tomou calorosamente a defesa da irmã.

—O que eu lhe contei, disse elle, foram apenas as palavras. Não pude nem poderei reproduzir a expressão sincera com que ella as proferiu e a profunda tristeza que havia em seus olhos. Não lhe nego que, ao vel-a mudar tão depressa e entrar alegre na sala, senti tal ou qual abalo de dúvida; mas passou logo. Sua natureza tem esse raro poder de concentrar a amargura no coração; tambem a dor tem suas hypocrisias...