—Nada, disse ella; ia... ia embebida naquella toada. Não ouve?

Ouvia-se effectivamente, a algumas braças adeante, uma cantiga da roça, meia alegre, meia plangente. O cantor appareceu, logo que os cavalleiros dobraram a curva que a estrada fazia naquelle logar. Era o preto, que pouco tinham visto sentado no chão.

—Que lhe dizia eu? observou a irmã de Estacio. Alli vai o infeliz de ha pouco. Uma laranja chupada no capim e trez ou quatro quadras, é o bastante para lhe encurtar o caminho. Creia que vai feliz, sem precisar comprar o tempo. Nós poderiamos dizer o mesmo?

—Porque não?

A moça recolheu-se ao silêncio.

—Helena, isso que voce acaba de dizer. Vamos, estamos sos; confesse alguma tristeza que tenha.

—Nenhuma, respondeu a moca. Peço-lhe, entretanto, uma cousa.

—Diga.

—Peço-lhe que me comunique todas as más impressões que tiver a meu respeito. Explicarei umas, procurarei desvanecer-lhe outras, emendando-me. Sobretudo, peço-lhe que escreva em seu espirito esta verdade: é que sou uma pobre alma lançada n'um turbilhão.

Estacio ia pedir explicação mais desenvolvida daquellas últimas palavras; mas Helena, como se esperasse a pergunta, brandira o chicote, e deitou a egua a correr. Estacio fez o mesmo ao cavallo; dahi a alguns minutos entravam na chacara, elle aturdido e curioso, ella com a face vermelha e a bater-lhe violentamente o coração.